Edição 303 | 10 Agosto 2009

O desejo e a espontaneidade capciosa

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Márcia Junges | Tradução Benno Dischinger

A pós-modernidade tende a esquecer, ou mesmo minimizar, que desejo e espontaneidade capciosa não devem ser confundidos. Heteronomia é condição da autonomia, afirma o filósofo francês Paul Valadier

“Creio que a vida moral deve ser concebida menos sob a categoria do dever do que da beleza: é preciso que se descubra, num dia ou noutro, que é belo observar normas e leis sociais, como um artista considera belo submeter-se às práticas e às regras em uso para aprender sua profissão”. A afirmação é do filósofo francês Paul Valadier, SJ, em entrevista exclusiva, concedida por e-mail à IHU On-Line. Em sua opinião, a prerrogativa da autonomia é a heteronomia, e nós, pós-modernos, não devemos esquecer ou minimizar o fato de que desejo e espontaneidade capciosa não são a mesma coisa. Valadier estará na Unisinos em 13 de agosto, quando proferirá a conferência Narrar Deus no horizonte do niilismo, pré-evento do Simpósio Internacional Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e Impossibilidades, que acontecerá de 14 a 17 de setembro. Em 15-08-2009, falará sobre Desejo e lei moral no Colóquio Internacional A ética da psicanálise: Lacan estaria justificado em dizer “não cedas de teu desejo”? [ne cède pas sur ton désir]?

Valadier é professor de filosofia moral e política nas Faculdades Jesuítas de Paris (Centre Sèvres). É licenciado em Filosofia pela Sorbonne, mestre e doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Lyon. Foi redator da revista Études e é autor de uma vasta bibliografia. Sobre Nietzsche escreveu, entre outros livros, Nietzsche et la critique du christianisme (Paris: Cerf, 1974); Essais sur la modernité, Nietzsche et Marx (Paris: Cerf, 1974); Nietzsche, l’athée de rigueur (Paris: DDB, 1989); e Nietzsche l'intempestif (Paris: Beauchesne, 2000). Entre seus outros livros, citamos La condition chrétienne, être du monde sans en être (Paris: Le Seuil, 2003) e L’anarchie des valeurs (Paris: Albin Michel, 1997). Entre suas obras publicadas em português, destacam-se: Elogio da consciência (São Leopoldo: Editora Unisinos, 2001); Um cristianismo de futuro: para uma nova aliança entre razão e fé (Lisboa: Instituto Piaget, 2001); e A moral em desordem: um discurso em defesa do ser humano (São Paulo: Loyola, 2003). Foi conferencista no Simpósio Internacional O Futuro da Autonomia. Uma sociedade de indivíduos?, com as conferências A moral após o individualismo e O futuro da autonomia do indivíduo, política e niilismo. A esse respeito, confira o artigo O futuro da autonomia do indivíduo, política e niilismo: leitura filosófica e teológica, publicado na coletânea O futuro da autonomia: uma sociedade de indivíduos (Rio de Janeiro: PUC-Rio; São Leopoldo: Unisinos, 2009).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como é possível conciliar a ética do desejo, proposta por Freud e aprofundada por Lacan, com uma lei moral?

Paul Valadier - A “conciliação” entre desejo, tal como foi analisada por Freud e depois por Lacan, apresenta diferenças notórias entre os dois, e uma lei moral não funciona por si. Muitas coisas dependem da ideia que se faz do desejo, e as abordagens não são simples. É verdade que a opinião pública opõe desejo e lei moral, o desejo parecendo anárquico e selvagem, a lei moral repressiva e imposta arbitrariamente do exterior ao desejo. Na realidade, quando se considera, segundo perspectivas bem destacadas, parece-me, pela psicologia profunda, que o desejo deve ser construído, suscitado, solicitado, que ele resulta de uma longa e difícil concretização, a oposição se esfuma e mesmo desaparece. Com efeito, uma criança, por exemplo, que não reconhecesse o interdito (ou os interditos) pela educação recebida, permaneceria prisioneira de seus impulsos, não chegaria mesmo a controlar seu corpo, a entrar em relação com os outros. É este encontro muitas vezes difícil e mesmo conflituoso com os interditos e as normas sociais que permitem à criança chegar a si mesma. Que se pense nas regras da linguagem, recebidas e impostas de fora (uma criança não fala “naturalmente” determinada língua), elas devem ser inculcadas, para que pouco a pouco a criança as interiorize, as torne suas e possa, em seguida, falar como um sujeito pessoal, capaz de se comunicar com outros. A heteronomia é a condição da autonomia.

IHU On-Line - Essa ética do desejo não nos levaria a um relativismo moral, fruto da anarquia dos valores?

Paul Valadier - Tal antropologia do desejo poderia, com efeito, conduzir ao relativismo. Mas isso seria esquecer que, se o desejo se forma, e ele jamais o será total e definitivamente, isso só se dá pelo encontro de relações familiares, sociais, numa cultura dada. Esse encontro põe diante do indivíduo um ethos mais ou menos coerente e bem-articulado, mas suficientemente firme para que o indivíduo encontre nele maneiras de fazer e de viver que passam através dos costumes, das normas sociais, do direito... Tal é a ética, com efeito, sempre relativa a uma sociedade e a uma época dadas, mas esta ética, sempre mesclada de hábitos e de maneiras de fazer equívocas, ou até alienantes (escravidão, estatuto inferior da mulher, sacrifícios humanos, bruxaria...), deve ser mensurada à moral, isto é, ao crivo de um julgamento universalizante: o que me propõe minha sociedade é degradante para minha humanidade e a do próximo, ou me permite uma realização real de minhas aptidões e das do próximo (imperativo categórico kantiano, ou a perspectiva cristã do respeito, em si e no outro, da imagem de Deus ou do Cristo)?

IHU On-Line - Numa perspectiva nietzschiana, essa ética do desejo revelaria que a moral é, realmente, uma “segunda natureza”, ou ainda, uma “contranatureza”?

Paul Valadier - Nietzsche,  antes de Freud, viu bem até que ponto o devir humano do que ele chama “o animal homem” descobre a crueldade. Que se leia a este respeito a Segunda Dissertação de A Genealogia da Moral, e se verá que Nietzsche absolutamente não é um naturalista que sustentaria a tese, segundo a qual o que acontece a si ou à subjetividade, ao que ele chama “o indivíduo soberano”, se desenvolva mecanicamente e, segundo processos internos, autodesenvolvendo-se espontaneamente. É preciso encontrar uma regra imposta duramente para que este animal humano aprenda a prometer e, portanto, a sair da imediatez para se engajar em direção ao futuro. A gênese do indivíduo humano passa pelo encontro, frequentemente cruel e torturante, do contrato entre credor (a sociedade, por exemplo, que confere linguagem e maneira de fazer) e devedor, que se encontra em posição de prestar o que ele recebeu gratuitamente e que irá muito provavelmente ficar sempre aquém da dívida a reembolsar. De onde emerge a ideia da responsabilidade, associada quase necessariamente à de culpabilidade. Assim, para Nietzsche, a moral é antes uma espécie de “contranatureza” que deve ser imposta pela crueldade e, se ela dá assim ao indivíduo uma segunda natureza, esta fere fatalmente os “afetos” brutos e selvagens inerentes a uma vida não educada. Entretanto, a cultura do indivíduo não se processa, como em toda cultura, sem um trabalho rigoroso sobre si, sem uma ascese impelida a termo pelos “padres ascéticos”, mas estes não fazem senão conduzir a um extremo o que toda cultura de si supõe. Numa boa leitura dos textos pode-se até perguntar se para Nietzsche esses “padres ascéticos” não têm um papel histórico necessário ao acontecimento da humanidade!...

IHU On-Line - Em que medida essa verdade que emana da fala do sujeito pelo desejo, espécie de imperativo categórico singular, se contrapõe ao imperativo categórico kantiano com base no individualismo?

Paul Valadier - Essas perspectivas seriam realmente tão afastadas das de Kant, cujo discurso é certamente mais “azeitado”, menos brutal e menos rude que aquele de Nietzsche? Pode-se dizer que, como luterano consciente de o ser, Kant  sabe muito bem que a lei vulnera, que ela absolutamente não funciona por si, que ela deve ser imposta a uma sensibilidade rebelde e que jamais qualquer vitória moral pode ser assegurada. Pode-se mesmo citar algum caso, se pergunta Kant, no qual se estaria certo que a pessoa agiu por dever e não somente em conformidade com as normas sociais? Sem ainda falar do inconsciente, Kant não estaria no limiar dessa realidade profunda, de que jamais a pessoa em seu ato poderá dizer que ela se conecta realmente consigo mesma, e então, que a lei moral continua sendo o seu juiz? O que constitui o ponto de partida para Kant são postulados da razão prática que conduzem a pressupor a imortalidade da alma e uma retribuição no além por um Deus justo. 

IHU On-Line - Poderíamos, ainda, comparar a exortação lacaniana de não ceder do nosso desejo ao amor fati de Nietzsche? Por quê?

Paul Valadier - É bem difícil de saber o que Lacan entende por “não cedas do teu desejo”. Assim como creio compreendê-la (mas, como sempre em Lacan, o duplo entendimento das fórmulas, sua ambiguidade perturbadora, ou mesmo a mistificação fazem parte do discurso...), eu não penso que esta sentença corresponda ao amor fati de Nietzsche. Este amor fati é antes para Nietzsche um dizer sim ao que é tal como é, portanto um sim à vida e ao mundo em toda a sua profundeza, o que ultrapassa bastante o indivíduo e seu desejo. Seria fazer demasiadas nuances de tudo isso. Mas Nietzsche propõe finalmente um dizer sim em que o desejo cede ante a profundeza abissal do mundo, a qual é terrível para um homem sempre mais ou menos orientado à busca de sua “pequena felicidade”. “O último homem” está a uma grande distância do “super-homem” que seria, como a criança, capaz de dançar sobre o abismo e talvez de nele perecer. O grande “dizer-sim”, inclui o “dizer-não”, ou a passagem por aquilo que Nietzsche chama “mil mortes” na vida! Renúncia última a se procurar no mundo ou a se procurar na realização de seu desejo, e, sobretudo, a procurar “um sentido” (Providência, finalidade moral do mundo...); tal seria, sem dúvida, a mensagem última e trágica de Nietzsche.

IHU On-Line - O que a ética do desejo revela sobre a subjetividade pós-moderna?

Paul Valadier - Pode-se avançar, sem grande risco, que esta ética do desejo coloca no centro a subjetividade. Ela está, portanto, seguramente, à grande distância das perspectivas dos antigos gregos que solicitavam antes o homem a se deixar mensurar por um cosmos regulado e a encontrar sua felicidade no respeito às leis e aos costumes de sua cidade. Seria, por certo, preciso fazer muitas nuances, já que as diferenças são grandes entre um Aristóteles  e os estóicos, eles próprios muito diversos. Contudo, para nenhum deles a subjetividade e seu desejo estão no centro. Todos veem também que a felicidade se atinge por um trabalho sobre si mesmo, por exercícios de sabedoria e, por isso, estão, sem dúvida, próximos da ideia avançada mais acima, a saber, que o desejo não deve ser confundido com a espontaneidade capciosa. É, sem dúvida, isso que a “pós-modernidade” tende a esquecer ou a minimizar.

IHU On-Line - Não ceder do próprio desejo seria erigir o gozo como imperativo? Por quê?

Paul Valadier - A palavra “gozo” é frequentemente suspeita entre os moralistas e nas tradições espirituais. Há, por certo, um gozo que significa redobramento sobre si, sobre o próprio umbigo, fechamento em satisfações infinitas e sempre evanescentes. Ao mesmo tempo Freud ou Lacan, mas também certos místicos - esquece-se muito isso - nos ensinaram que existe também um bom “gozo” ou desfrute. Malgrado a disciplina que lhe é imposta, é preciso que a criança “goze [tenha prazer]” em obedecer aos seus pais, em respeitar as normas sociais, encontrando profunda satisfação de ser reconhecida por ela mesma. Será isso tão distante da ideia evangélica que é preciso amar-se a si mesmo para poder amar Deus e seu próximo? Mesmo passando por duras noites e angústias, o místico não procura gozar [desfrutar] em Deus e de Deus, graças a um radical esquecimento de si? Um paradoxo, sem dúvida, mas um paradoxo instrutivo.

IHU On-Line - Sob que aspectos poderíamos dizer que a afirmação do próprio desejo é uma estética da existência?

Paul Valadier - A ideia de uma estética da existência pode certamente parecer leviana e mesmo insolente numa época em que tantos entes humanos estão desesperados, na miséria e vivem em situações indignas do ser humano. E, no entanto, eu creio que a vida moral deve ser concebida menos sob a categoria do dever do que da beleza: é preciso que se descubra, num dia ou noutro, que é belo observar normas e leis sociais, como um artista considera belo submeter-se às práticas e às regras em uso para aprender sua profissão. Longe de se opor à sua liberdade criadora, é isso que lhe permitirá ser eventualmente inventivo e dar um traço pessoal e próprio à sua obra. Da mesma forma, é preciso, no mais alto nível, mostrar a uma criança que é real e simplesmente belo e gratificante não mentir, esforçar-se na escola para encontrar seu lugar na sociedade e aí prestar serviço; que é belo, numa palavra, amar, mesmo que isso custe. Todavia, toda criação, mesmo artística, não custa também muito aos grandes artistas? Basta olhar suas vidas concretas para se aperceber a que preço se merece a beleza!

>> Confira outras entrevistas concedidas por Paul Valadier ao IHU

* Investidas contra o Deus moral obsessivo. IHU On-Line número 127, de 13-12-2004;

* O futuro da autonomia, política e niilismo. IHU On-Line número 220, de 21-05-2007;

* “A esquerda francesa está perdida“. Entrevista especial com com Paul Valadier. Notícias do Dia 27-05-2007, do site do IHU;

* O empenho concreto dos cristão pelos direitos humanos. Notícias do Dia 14-12-2008, do site do IHU.

>> Confira as publicações de Paul Valadier no IHU

* Investidas contra o Deus moral obsessivo, republicada nos Cadernos IHU Em Formação número 15, O pensamento de Friedrich Nietzsche

* A moral após o individualismo: a anarquia dos valores, Cadernos Teologia Pública número 31.

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