Edição 300 | 13 Julho 2009

Ciência e espiritualidade

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Jean-Michel Maldamé | Tradução Luís Marcos Sander

A noção de homo sapiens convida-nos a “romper com a antropologia dualista, que acompanhou e ainda acompanha a vida cristã. Ela é, portanto, um apelo a maravilhar-se diante da vida e a abrir–se para uma dimensão de responsabilidade”, escreve Jean-Michel Maldamé

Para o teólogo dominicano Jean-Michel Maldamé é possível conciliar fé e ciência. Seus pontos de vista são desenvolvidos no artigo a seguir, inédito, oferecido pelo autor para publicação na IHU On-Line. A versão completa do texto poderá ser conferida em breve no Cadernos Teologia Pública, publicação do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Graduado em matemática, filosofia e teologia, é membro da Pontifícia Academia das Ciências desde 1997. Dirige o Instituto de Pesquisas Interdisciplinares para as Ciências, na França, e é especialista no diálogo entre fé e ciência. Publicou mais de dez livros, entre eles En Travail D'enfantement: Creation Et evolution (Paris: Aubin, 2000); Cristo para o universo: fé cristã e cosmologia moderna (São Paulo: Paulinas, 2005) e Le Peche Originel: Foi Chretienne, Mythe Et Metaphysique (Paris: Cerf, 2008).

Confira o artigo.

Adão era um homo sapiens?

A questão: “Adão era um homo sapiens?” me foi proposta. Se a retomo, não se trata de um elo de provocação. Ela cruza dois registros de vocabulário e, por conseguinte, dois domínios do saber que mantém relações complexas no quadro do “diálogo ciência e fé”. Em primeiro lugar, a palavra hebraica Adam se refere à Bíblia, enquanto a expressão latina homo sapiens diz respeito à ciência. Além disso, a questão é colocada no passado e o emprego deste tempo remete à aparição da humanidade sobre a terra; ela convida a pôr face a face a visão científica que constata a emergência progressiva da humanidade no processo da evolução, de uma parte e, de outra, uma concepção da criação compreendida como uma nítida separação entre as espécies.

Esta confrontação não diz respeito somente aos importantes movimentos nos Estados Unidos e no Islã, do criacionismo ou fundamentalismo, mas à doutrina da Igreja católica e, em particular, o que diz o catecismo sobre o pecado original. Eu ouso colocar a questão para convidar a revisitar a doutrina, deixando de impô-la como verdadeira por estipulação dogmática. Eu penso prestar serviço abordando esta questão de maneira frontal e sem rodeios. A questão não é circunstancial; a partir da questão da origem da humanidade se trata de sua identidade. Para conduzir esta reflexão, começarei por examinar o sentido dos termos bíblicos (em hebraico e em latim), para ver sua relação com a questão das origens da humanidade.

A teoria da evolução

A visão atual da vida é dominada por uma teoria científica que é expressa habitualmente como “teoria da evolução”. Ela dá uma visão que unifica os diversos domínios das ciências da vida: a genética, a biologia celular, a paleontologia e a fisiologia. Ela explica a unidade e a diversidade dos seres vivos como um todo coerente explicado pelas leis da biologia. Uma apresentação em arborescência delineia a história da formação dos entes vivos.

Segundo esta teoria, o ser humano é situado nesta perspectiva de conjunto. A aparição da humanidade se inscreve no movimento de conjunto. Ela não é uma exceção, e a fortiori não constitui uma violência contra as leis da natureza; ela se inscreve na dinâmica de aperfeiçoamento que começa com formas elementares, complexificando-se pouco a pouco. Convém falar de emergência humana.

Homo sapiens

Depois de Aristóteles, há uns 2500 anos, e principalmente após Lineu no século XVIII, os cientistas têm o cuidado de classificar os viventes segundo uma nomenclatura estrita. Eles obedecem a uma regra precisa que vale para todas as definições: uma definição supõe a junção de dois termos: o primeiro é geral (ou genérico em ciências), o segundo é particular (ou específico em ciências). Assim, define-se um gato dizendo inicialmente que ele é um felino (o que o aproxima de um grande número de outras espécies como o tigre e o lince); especifica-se, a seguir, que ele é digitígrado (com unhas retráteis) e que é um animal doméstico. A tradição científica propõe que a definição científica seja dada por um nome latino.

A expressão homo sapiens obedece a estas exigências. Homo designa o que é comum a diversas espécies e sapiens diz o próprio de uma só espécie. Vê-se, então, que o termo homo não pode ser traduzido por homem sem cometer um contra-senso. Com efeito, o termo “homem” no sentido comum do termo se refere somente à espécie humana; enquanto no quadro da ciência o termo homo se refere a várias espécies que tem como traço característico o andar ereto; sendo este signo ligado a vários outros: a liberação da mão, a primazia dada à face ou o desenvolvimento do crânio.

Acrescentar o termo sapiens é, então, precisar o que é específico da humanidade: a palavra, o pensamento, o raciocínio que caracteriza o que se chama em latim um sábio [ou sabedor] (sapiens). Nos livros de ciências se diz igualmente “homem moderno” – não se diz mais o que é específico do ser humano, mas seu lugar na árvore evolutiva, no termo da história da vida .

A perspectiva da evolução é fundada na exigência expressa por um adágio aristotélico: natura non facit saltus, a natureza não dá saltos. Não há ruptura entre as etapas da história da emergência da humanidade. Por esta razão, o termo espécie mudou de sentido; fala-se de população para designar um conjunto de viventes reunidos por critérios biológicos, cujo primeiro critério é a interfecundidade.

A emergência do homem

O conhecimento cientifico se baseia em elementos diversos. Um ponto essencial é a descoberta dos fósseis. Ora, neste ponto a situação é paradoxal. Há ao mesmo tempo muitos e poucos fósseis. Há poucos fósseis, no sentido de que não se pode traçar de maneira contínua uma história da evolução que começou com os primatas há uns sessenta milhões de anos. Há muitos fósseis, no sentido de que se encontraram abundantes fósseis (perto de 50.000) numa região da África, o que permite pensar que a humanidade nasceu num único lar, o vale do Omo e que ela se dispersou a seguir sobre a face da terra.

Pode-se, pois, dizer que há alguns milhões de anos teve lugar uma bifurcação, com uma ramificação que deu nascimento aos símios. Situam-se, então, populações sob o vocábulo piteco [ou pitecus], próximo do ancestral comum entre os humanos e os símios . Pode-se qualificá-los como pré-humanos. Eles formam uma família muito vasta, com formas diversificadas. Fala-se de australopiteco e depois de ardipiteco. Este último é um ente bípede e trepador. Foi destacado com a descoberta do crânio de Tomaï, de uns sete milhões de anos, e é aproximado da descoberta de fêmures de Aurorina, de seis milhões de anos.

A questão permanece aberta: qual é o ancestral do gênero humano? A história de Lucy é muito significativa. Em 1974 se encontrou uma parte importante do esqueleto (52 ossos sobre 206) que permitem notar seu bipedismo (com um caminhar diferente do nosso). No momento de sua descoberta ela foi considerada uma ancestral da humanidade; agora ela é situada num ramo divergente... Isto é expressivo da dificuldade fundamental de se traçar a emergência humana. A ciência é ciosa em dar conta da realidade; mas, sua visão muda segundo as descobertas.

O gênero homo é vinculado a uns dois ou três milhões de anos, período para o qual não se tem documentação fora da bacia do Omo. A explicação que é dada em função da teoria da evolução é vinculada à mudança climática que obriga as populações a se adaptarem e, em particular, a deixarem as árvores pela savana e, por isso, desenvolver outra maneira de viver e a privilegiar qualidades novas para sua estatura (posição ereta) e principalmente o desenvolvimento do cérebro, que é o critério retido para determinar o gênero homo.

A questão é aquela que nos veio da unidade dessas populações chamadas  hominídeos – um modo de não se pronunciar sobre sua natureza. Com efeito, encontraram-se diversas famílias ditas homo rudolfensis, homo habilis... Vê-se aparecer também homo ergaster, homo erectus...

Destaco imediatamente que nestas designações há uma dificuldade: algumas são tomadas a partir de uma situação singular, um fóssil nomeado de maneira fantasista, segundo o momento ou o lugar... Há também um nome que realça a constituição física do indivíduo... Há ainda uma determinação segundo suas aptidões... Dizer homo erectus, homo habilis... é assumir determinações que não se referem ao mesmo campo semântico e se referem, então, a critérios diversos para julgar e classificar.

É seguro que a diversificação tem lugar segundo critérios que correspondem a todas as outras espécies de viventes: num isolamento as pressões obrigam a uma adaptação que se inscreve no quadro da teoria da evolução e que toma em conta a genética segundo um princípio de seleção, pelo qual o mais apto transmite à sua descendência os genes que favorecem sua sobrevivência em condições novas e de certa maneira produz uma especialização.

Se o resumo precedente dá a impressão de cair em incertezas, não é preciso entendê-lo como uma denegação do valor das descobertas. Elas não contrariam em nada a teoria da evolução: com efeito, elas se inscrevem nos seus métodos, princípios e regras científicas. É preciso lembrar-se que uma teoria não é um discurso acabado, mas antes um programa de pesquisa sempre aberto e acolhedor para a novidade. Dizer que não se sabe não é negar o valor da própria pesquisa, mas ter o cuidado de levá-la mais adiante. Reconhecer que ainda não se sabe traçar minuciosamente a árvore que vai dos primatas ao homo sapiens não retira nada ao valor da visão atual. Suas linhas gerais se impõem.

O sentido literal do texto bíblico

Durante séculos se leu este texto como um relato histórico concreto; os conhecimentos da época, tanto históricos quanto geográficos, se ajustavam facilmente ao que é dito no relato. Os Padres da Igreja e os doutores medievais falavam, pois, de Adão e Eva como de dois ancestrais da humanidade, tão reais em sua existência quanto Davi e Betsabé, ou Salomão e a filha do faraó sua esposa. Com a descoberta da imensidão do mundo geográfico, da diversidade das populações humanas e, sobretudo, da geologia e depois da paleontologia, tal quadro não podia ser tido por verdadeiro. A exegese se deu conta que os primeiros capítulos do Gênesis não podiam ser lidos como informação sobre os ancestrais históricos da humanidade atual.

A questão foi claramente colocada desde as grandes descobertas dos séculos dezesseis e dezessete. Ela foi colocada mais radicalmente no decurso do século dezenove. A questão suscitou uma grave crise na consciência européia; ela se manifestou principalmente no século dezenove nas universidades européias; ela não permaneceu restrita ao círculo dos eruditos; ela entrou no vasto publico e, em particular, no mundo católico em fins do século dezenove e no início do século vinte. O choque tem sido rude; os católicos tiveram a chance de ter podido se beneficiar do trabalho de grandes inteligências – como o Padre Lagrange – que introduziram exigências intelectuais para ler rigorosamente o texto bíblico e determinar seu sentido primário. Eles estudaram o sentido literal e mostraram que o mesmo estava aberto para interpretações simbólicas ou alegóricas.

É preciso lê-lo primeiramente em sua língua original e não somente em traduções. Esta exigência tem como corolário que, para ler inteligentemente um texto, é preciso também ter em conta o contexto histórico e cultural e então compará-lo com os textos que lhe eram contemporâneos. É, pois, preciso situar o texto bíblico na literatura do Oriente Médio – uma imensa literatura que se descobriu a partir do século dezenove. Tal é o método histórico-crítico.

Mais ainda, a determinação do sentido de um texto supõe que seja preciso considerar a intenção do autor humano . Quem fala e o que fala? Por que fala? O sentido literal do texto é, então, determinado por aquilo que se chama “gênero literário”; ou seja, um texto jurídico, um poema, um hino litúrgico, um relato histórico, uma mensagem profética, uma reflexão de um sábio... Cada gênero literário tem suas riquezas e seus constrangimentos que são as exigências internas da expressão humana. Assim, a análise rigorosa das primeiras páginas da Bíblia mostrou que o primeiro texto do Gênesis tinha sido escrito por sacerdotes ao modo de hino litúrgico e que o segundo texto havia sido escrito por um sábio procurando dizer por um mito a razão da beleza da vida e a dificuldade de viver. A palavra mito não tem nada pejorativo; o mito exprime que, para dizer uma verdade que ultrapassa a observação superficial, é preciso nomear a causa do que é proposto, pondo em cena figuras emblemáticas. Estas precisam ser compreendidas na ação; se forem fixadas numa representação isolada, elas se tornam absurdas. De fato, no relato há contradições: a geografia é imaginária, a serpente fala, a árvore do centro do jardim se desdobra em árvore de vida e árvore do conhecimento do bem e do mal... Elas são sobrepostas quando se entra no movimento do texto. Este põe em cena dois personagens que tem um papel emblemático. Este fato é comum na Bíblia que apresenta patriarcas e matriarcas. Não são indivíduos isolados, mas figuras englobadoras para dizer que se trata de todo homem e toda mulher. Ora, isso não responde às questões levantadas hoje em dia pela paleontologia humana, nem pela teoria da evolução.

Vale o mesmo para o primeiro relato que não pode ser compreendido como a narração da formação dos elementos segundo aquilo que comumente se chama o big bang. Tendo, assim, liberado o pensamento do cuidado de fazer concordar os resultados da ciência com o texto bíblico, resulta haver uma relação entre os elementos. Com efeito, os resultados da ciência convidam a ver melhor qual é a história da origem da humanidade e então dar um novo sentido a afirmações antigas. É, pois, necessário ver agora qual tem sido a interpretação dos textos bíblicos no plano antropológico, antes de ver como essas interpretações levam a abrir novas perspectivas em antropologia.

Um enraizamento cósmico

O ente humano é constituído por elementos físico-químicos que são unidos numa célula, cuja organização forma os órgãos que constituem o vivente. Assim, em cada célula humana se encontra a memória de toda a evolução.

O que se passou há uns quatro bilhões de anos, quando as moléculas da vida se constituíram, o que se passou há uns três bilhões de anos nas células eucariotes, o que se passou quando a vida explodiu na multidão das formas vivas por ocasião da explosão no nascimento do cambriano, há uns quinhentos milhões de anos, não é coisa do passado sepultado no nada, mas antes presente no íntimo do ser humano. A constituição da atmosfera terrestre, que é fruto da própria vida, é um acontecimento que é estrutural para o organismo humano. Da mesma forma, o que se passou com a aparição dos primatas há uns 60 milhões de anos não é estranho ao que é o homem hoje.

A história cósmica e biológica está inscrita no organismo de todo homo sapiens. A consideração do organismo humano mostra seu enraizamento numa dimensão cósmica, da qual ele é inseparável. Os Antigos o viam numa perspectiva de consumação e de produção. A visão histórica atual lhe acrescenta a dimensão constitutiva. O ser humano é uma realização eminente das possibilidades inscritas na matéria e nas estruturas que fazem a vida. Não é possível ver a humanidade separando-a de seu meio original.

A espécie homo sapiens está inscrita no mundo dos viventes pela maneira com a qual ela põe em obra as aptidões comuns a todos os viventes.

Aparece, então, que ela pode ser situada cientificamente numa escala de complexidade crescente, mas também de mais forte integração dos elementos constitutivos da vida. Isto aparece na estrutura do corpo. A tradição filosófica não o ignora. Basta ler o que Aristóteles dizia da mão, ou o que Cícero, inscrevendo-se na tradição estóica, dizia da posição ereta. Mas, o que era encarado de maneira estática aparece melhor numa perspectiva dinâmica.

Para pensar este enraizamento, parece-me legítimo refletir sobre a formação do ser humano. Com efeito, a partir de uma primeira célula saída da fusão dos gametas no momento da concepção, um organismo se forma. As etapas da embriogênese mostram como a complexificação assume as riquezas do estado anterior.

O fim que esclarece o processo

Se a criação é obra de sabedoria, é preciso explicitar outra dimensão de toda a obra de sabedoria: o fim ou a realização de uma intenção. A noção de finalidade no sentido estrito foi excluída da explicação científica. Este afastamento era necessário para evitar certo número de ingenuidades. Ela também esteve fundada numa mudança da noção de movimento que está na base do pensamento científico. Mas, este interdito não vale quando se entra em filosofia. Isto se dá em dois níveis.

O primeiro diz respeito à própria definição do vivente. O vivente é um ente unificado, ordenado, cuja construção e seu devir são finalizados pela constituição de um organismo. A embriologia o mostra claramente: uma célula se torna várias e depois deste conjunto não permanece passivamente um “amontoado de células”, ele se torna um organismo, um todo unificado e estruturado. Para expressá-lo, Jacques Monod introduziu o termo telenomia... Ele é fiel à tradição filosófica ocidental, enquanto Kant faz desta finalidade interna o específico do vivente.

O segundo nível de conceitualização é propriamente metafísico. Ele se refere, portanto, a um sentido mais amplo que se assume por analogia com a obra humana cujo modelo é o arquiteto. Ele realiza a construção começando por um projeto, um plano que é uma visão de conjunto direcionada para uma efetivação. Por analogia com esta maneira de fazer, a teologia fala da criação neste sentido: a temporalidade se desenrola para um fim... E este fim é a razão de ser do que advém. Assim, a antropologia bíblica não é primariamente uma consideração sobre o começo, mas uma atenção ao presente, compreendendo-o à luz da efetivação.

Na perspectiva escatológica assim desenvolvida, aparece que o crente pode, sem desespero, considerar que este desenrolar é um combate. O escândalo do mal é então enfrentado, de acordo com as proposições da teologia natural que contorna isto no discurso sobre a teodicéia. A frase do Gênesis, o homem criado à imagem de Deus, é entendida no sentido desenvolvido pelos Padres no seguimento de são Paulo: o homem é chamado a ser imagem da perfeita imagem de Deus, seu Filho eterno, o Logos encarnado, o Senhor ressuscitado. Assim, a semelhança com Deus é entendida em referência ao ressuscitado. Esta teologia é desenvolvida na liturgia pascal que celebra o ressuscitado: Imagem de Deus invisível, ele é o princípio e o fim de todas as coisas, ele é o Primogênito dentre os mortos, Cabeça do corpo que é a Igreja salva pelo sangue de sua cruz. Assim, o enunciado teológico da salvação não está reservado ao imediato, mas assume uma dimensão universal no espaço e no tempo. Ele é carregado pela esperança.

Conclusão: o paradoxo humano

No termo desta clarificação, aparece que a questão “Adão [Adam] era um homo sapiens?” se inscreve no cerne das dificuldades da leitura da Bíblia para aqueles que assimilam os conhecimentos científicos atuais. Mas, a formulação da questão é inadequada, porque ela coloca o verbo no passado. Ela age como se Adam fosse um personagem do passado e dessa forma ela não respeita o sentido do primeiro relato do Gênesis [da Gênese] que designa pela palavra Adam todo homem de todos os tempos. Ela também não respeita a significação do segundo texto, no qual Adam não é o nome próprio do primeiro homo sapiens. É certo que o primeiro homem existiu, já que a humanidade vive. Se a ciência não chega a captá-lo com precisão é importante reconhecer que a Bíblia não foi escrita para atenuar esta ignorância.

A Bíblia foi escrita – é seu sentido literal – para expressar a situação da humanidade criada por Deus. Os textos bíblicos se referem ao presente. A humanidade é criada por amor, no bem; a humanidade tem a responsabilidade de fazer uso da liberdade. O sentido literal dos relatos bíblicos fundantes (o que o autor queria significar) não é o de dar uma prestação de contas descritiva da formação do mundo e da formação da espécie humana. Os Padres da Igreja e os grandes doutores estiveram atentos a bem outras riquezas do texto – que não estão indissociavelmente vinculados à sua visão do passado.

Sobre isso a ciência, como tal, não sabe nada! A noção de homo sapiens não o diz, mas ela não está fechada nesta perspectiva, ao contrário! Ela convida a romper com a antropologia dualista, que acompanhou e ainda acompanha a vida cristã. Ela é, portanto, um apelo a maravilhar-se diante da vida e a abrir para uma dimensão de responsabilidade.

Cada gênero literário tem suas riquezas e seus constrangimentos que são as exigências internas da expressão humana

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