Edição 286 | 22 Dezembro 2008

Filme da semana - O segredo do grão

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André Dick

O filme comentado nessa edição foi visto por algum/a colega do IHU e está em exibição nos cinemas de Porto Alegre, como o Guion Center, no Centro Comercial Nova Olaria.

O segredo do grão

Título original: La graine et le mulet
Gênero: Drama
Tempo de duração: 151 minutos
Ano de lançamento (França): 2007
Direção: Abdellatif Kechiche
Elenco: Habib Boufares (Slimane Beiji), Hafsia Herzi (Rym), Farida Benkhetache (Karima), Abdelhamid Aktouche (Hamid),Bouraoura Marzouk (Souad), Alice Houri (Julia), Cyril Fayre (Serguei), Sami Zitouni (Majid), Leita D’Isernio (Lilia).
Sinopse: Slimane Beiji (Habib Boufares), de 60 anos, trabalha nos estaleiros do porto de Sète, consertando barcos e recolhendo peixes, e tem como sonho abrir o restaurante. É ajudado, para isso, por sua família, inclusive da ex-mulher, e por sua enteada, enquanto recebe a desaprovação da atual mulher.

O grão amargo do sonho

Premiado como o melhor filme no César, maior prêmio do cinema francês, em 2008, o filme O segredo do grão, de Abdellatif Kechiche, diretor que nasceu na Tunísia e emigrou para a França, apresenta dois aspectos importantes: o primeiro é sua influência da narrativa teatral, sendo quase uma peça filmada, apresentando poucos cortes e uma história contínua – não por acaso, Kechiche também é diretor teatral, e prefere dirigir mais amadores do que atores profissionais. O segundo é sobretudo a tendência do diretor em não querer esclarecer, de modo claro, a narrativa que conta, deixando a cargo do espectador estabelecer um elo entre as partes, ou seja, O segredo do grão apresenta uma liberdade extrema no que se refere às suas pretensões.

Esses dois aspectos acabam, por um lado, mostrando certa qualidade – sobretudo poética, na condução de imagens ao mesmo tempo melancólicas e bem desenhadas –, e, por outro, provocando um visível cansaço, porque o diretor não quer interromper o fluxo da sua linguagem cinematográfica para esclarecer melhor os encadeamentos. A sua pretensão, sob esse ponto de vista, é o hermetismo, a dificuldade, imposta tanto pelos personagens que, aos poucos, vai apresentando, quanto pela maneira como são filmados. Desse modo, O segredo do grão acaba sendo, ao mesmo tempo, um “filme de arte” – a começar por seu belo título –, e um filme voltado às limitações que isso provoca para o entendimento do espectador, no sentido de não transformar seu núcleo narrativo em algo que pode ser absorvido com mais intensidade – na verdade, isso é bastante comum em filmes difíceis, mas parece que O segredo do grão intensifica tal característica.

É importante esclarecer que o filme, a partir de sua fragmentação extrema, apresenta o desenho de uma família de origem tunisiana que pretende criar um restaurante num barco do porto de Sète, no sul da França, às margens do Mediterrâneo. Existe, já aí, um choque cultural bastante evidente; trata-se, na verdade, da luta de descendentes árabes para permanecer na França – e quando falamos nisso já nos vêm à memória os constantes conflitos que existem lá, com a desagregação social, o preconceito, um certo distanciamento de quem não é de origem exatamente francesa. O personagem principal, Slimane Beiji (Habib Boufares), de 60 anos, trabalha nos estaleiros desse porto, consertando barcos e recolhendo peixes, e tem como sonho abrir o restaurante. Para isso, pretende se afastar do trabalho. Divorciado, Beiji tem uma filha, Julia (Alice Houri), netos e um filho, Majid (Sami Zitouni), que é, ao mesmo tempo, casado e garoto de programa. Essa vida familiar apresenta momentos de tensão sobretudo pela sinalização, aos poucos, de que Beiji não se realizou profissionalmente e não consegue manter mais uma ligação afetuosa com a amante, Karima (Farida Benkhetache), que possui um hotel onde vivem. Mantém, a distância, uma relação com a ex-mulher Hamid (Abdelhamid Aktouche), que prepara, nos finais de semana, um cuscuz marroquino para a família. Beiji recebe também o cuscuz, e o prova sempre com a enteada Rym (Hafsia Herzi, que ganhou vários prêmios por sua boa interpretação), menina que acredita no sonho do padastro em abrir o restaurante onde haveria à venda o cuscuz da ex-mulher. Daí, inclusive, o título, pois o “grão” remete aos cereais, dos quais provém a semolina, um dos ingredientes do cuscuz de peixe, adaptado com farinha de milho. O filme se encaminha para justamente essa inauguração do restaurante, em que haveria autoridades locais que poderiam ajudar a financiá-lo.

O problema é que Karima não quer comparecer ao evento, apesar dos pedidos da filha Rym, pois gostaria que Beiji usasse o dinheiro da indenização para reformar seu hotel, e é nesse ponto que o filme estabelece um vínculo entre o passado de Beiji e sua transformação por meio do novo empreendimento. Haveria mesmo uma vontade de ele mudar? Seria o alimento que tempera com prazer alguns momentos da vida a base para uma transformação existencial? Este conceito foi trabalhado em filmes mais descompromissados, a exemplo de Chocolate e A festa de Babette. Em O segredo do grão, no entanto, o alimento não potencializa a saída para o personagem central, ou seja, quanto mais este se aproxima do seu sonho, mais parece perdido. Porque parece que o alimento, na verdade, não traz a alegria necessária para se esquecer da melancolia que traz a convivência com a amante do presente e a família que cresceu e foi sendo deixada para trás – até que a alimentação a reúne novamente. No entanto, quem diz que o personagem quer reunir essa família novamente? Não parece por acaso, daí, o diretor nunca conseguir – nem querer – delinear seus personagens. Eles estão de passagem pela tela, com a câmera os filmando em close-ups extremos – em determinado ponto, ou o espectador embarca na idéia do diretor, ou simplesmente limita seu interesse a acompanhá-lo, à medida que esse fluxo limita a condição para que se interrompa o desenvolvimento da narrativa e se pense a respeito dela, do que está se passando, tanto no que está no roteiro quanto o que parece claramente improvisado.

Até chegar a esse ponto, é notável como Kechiche aponta para uma certa desorganização do mundo familiar. A mudez constante de Beiji – um personagem sobretudo sem empatia com o público, o que prejudica O segredo do grão, apesar de ser algo proposital –, diante de filhos e netos, mostra que sua vida se encaminha para o destempero, ao contrário do gosto que provoca o cuscuz, que parece ser sua única felicidade. Essa desorganização familiar acaba, por um lado, mostrando o talento do diretor em filmar cenas no mesmo tom, como foi apontado pela crítica em geral, do neo-realismo italiano (de Vittorio De Sica, por exemplo) com um desempenho realmente notável de alguns atores, mas, por outro, um certo descompromisso com a montagem e uma fotografia (assinada por Lubomir Bakchev) que apontaria para um registro documental que cabe em alguns filmes, mas não exatamente no universo familiar (apesar de Woody Allen provar o contrário num filme como Maridos e esposas). Todos esses elementos apontam, no conjunto, para a poeticidade. Essa poeticidade é percebida sobretudo na seqüência em que Rym faz uma dança do ventre para os convidados da inauguração – enquanto o padastro corre atrás de sua motocicleta, roubada por alguns jovens. Mas é uma poeticidade que fica nesse meio termo: entre o desamparo existencial de um homem sexagenário e o sentimento agridoce em torno de seu sonho. O grão, para o espectador, acaba sendo amargo, difícil – como a luta do personagem central pelo seu sonho. E, com a quantidade de seqüências encadeadas, fica mais difícil tomar uma nova respiração para compreender o que falta para ser vivido.

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