Edição 274 | 22 Setembro 2008

Perfil Popular - Rosalba Eliane Gomes Wisnivski

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Bruna Quadros

Nesta semana, quem conta a sua trajetória de vida para a revista IHU On-Line é Rosalba Eliane Gomes Wisnivski, moradora do bairro Xaxim, em Curitiba, no Paraná. Há três anos, ela passou a trabalhar em uma padaria comunitária, que tem como base o sistema de auto-gestão. Segundo Rosalba, é esta prática que falta para o Brasil mudar e ser um país mais social, onde todos tenham vez e voz. Além de ser engajada em lutas sociais, Rosalba também é uma pessoa de muita fé. Durante a entrevista, ela destacou que a sua espiritualidade a faz caminhar para todos os lados pensando sempre no melhor não só para ela, mas também para o povo. Acompanhe, a seguir, os relatos de vida desta mulher, contados por telefone à revista IHU On-Line:

 

Nascida em Paranaguá, no Paraná, Rosalba, 51 anos, é a filha mais velha de outros três irmãos. Ela conta que sua mãe, Albani Gomes, sempre foi dona-de-casa. Para ajudar, ela costurava para fora. Seu pai, Hugo Gomes, era motorista de caminhão. “Tenho duas irmãs vivas e um irmão já falecido. Meu pai morreu do coração e o meu irmão, em um acidente de carro. Foram as minhas maiores tristezas.”

Da infância em Paranaguá, Rosalba lembra das brincadeiras com seus primos, subindo em árvores. “Minha relação com as minhas irmãs é bem família. Somos bem amigas. Quando minha mãe teve a segunda filha, eu já estava com 7 anos. Fui eu que ajudou a cuidar dela. É uma convivência de amigo e quase segunda mãe deles, porque a minha mãe costurava e eu cuidava dos meus irmãos.”
Ter amizade e fazer o bem, para receber o bem de volta. Estes foram os principais valores que Rosalba aprendeu na infância e carrega até hoje. Ela conta que foi sua mãe quem lhe passou mais esses valores, porque seu pai bebia muito. “Ele era muito bom para nós, enquanto pai. Mesmo com o problema do alcoolismo, ele nunca passou coisas erradas para a gente. Se não puder ajudar, mal também não se faz.”

Na época em que estudava, Rosalba cursou até a 5ª série, ainda morando em Paranaguá. “Quando terminei, as professoras diziam que eu tinha que continuar os estudos, mas não tínhamos condições. Enquanto estudei, aprendi tudo o que podia.” Quando a família se mudou para Curitiba, Rosalba estava com 15 anos. “Comecei a namorar e casei cedo, porque engravidei. Sempre trabalhei em casa. Minha mãe gostava muito de cozinhar, e aprendi a cozinhar para ajudar o meu marido em casa. Fazia bolos e salgados sob encomenda. Eu tinha o sonho de ter uma família, assim como minha mãe teve.” Orgulhosa, Rosalba comenta que seu casamento dura até hoje. Da união, nasceram três filhos: Luiz Renato, 34 anos, Rodrigo César, 30, e Lidiane Cristina, 26.

Para Rosalba, o conceito de família se define em duas palavras: amor e carinho. “Passamos por alguns problemas, porque meu marido também bebe. Já passei por esse problema na infância, com o meu pai, e é difícil superar.” Para passar por este desafio, Rosalba precisou contar, e muito, com a ajuda dos amigos. Ela já participava de grupos de família na sua rua, antes de começar a atuar nas Comunidades Eclesiais de Base, um trabalho que já dura mais de 20 anos. 

“O que a gente quer é um mundo melhor, um país mais social, onde todos tenham direito, vez e voz. Trabalhamos com muita força de vontade nas eleições do presidente Lula. Tinha uma esperança de que tudo ia mudar, mas sabíamos que não seria de uma hora para a outra.” Na visão de Rosalba, o Brasil tem condições de mudar, mas, enquanto as pessoas pensarem em eleger alguém só pelo dinheiro, vendendo o voto, o país não vai para frente nunca. “Temos que começar a mudar as pessoas que estão a nossa volta, porque o mesmo dinheiro que o político paga para que as pessoas coloquem placas em suas casas será retirado, quando ele for eleito.”

Rosalba trabalha em uma padaria comunitária há três anos. São cinco mulheres trabalhando no sistema de auto-gestão. “Se o nosso país fosse dirigido dessa maneira, acho que estaria 80% melhor. Aqui, todas têm vez e voz. Fazemos diversos produtos, como pães e bolachas, além de cozinharmos em casamento e fazermos almoços vegetarianos.”

Enquanto participante das Comunidades Eclesiais de Base, Rosalba acredita em uma Igreja mais viva, mais voltada para os interesses do povo. “Não acredito naquela Igreja em que os padres mandam em tudo e nós não somos nada. Acredito que fazemos a diferença, que somos o povo escolhido. Jesus nos deixou esta caminhada de estar dentro dos movimentos sociais, nas assembléias populares e gritos dos excluídos.”

Para Rosalba, ter fé é muito mais que acreditar em um ser maior, é ter uma direção para seguir. “A minha espiritualidade me faz caminhar para todos os lados pensando sempre no melhor para mim e para o povo. É essa a fé que me faz participar do grito dos excluídos, da Romaria da Terra, um encontro realizado em agosto com os integrantes do MST. A gente acredita nessa luta que eles têm.” Para Rosalba, se as terras que estão exageradamente nas mãos de uma só pessoa fossem divididas, haveria mais pessoas plantando arroz, feijão e não haveria necessidade de importar os alimentos.

“Tive muitos momentos felizes, como o meu casamento e o nascimento dos meus filhos.” No entanto, há uma data da qual Rosalba recorda com muito orgulho: 25 de agosto de 2005, dia da inauguração da padaria, na Vila São Pedro, em Curitiba. “Foi uma luta muito grande e, quando entramos no local e começamos a fazer o pão para vender, vi que era um sonho se realizando.” E é na padaria, seu local de trabalho, que Rosalba concentra o seu maior sonho. “Que a gente progrida na padaria comunitária, e que o povo acredite mais em uma outra forma de economia, a economia solidária, o que poderia ajudar o país a sair desse buraco.”

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