Edição 270 | 25 Agosto 2008

A classe média aponta para o forte predomínio do individualismo e do consumismo

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Graziela Wolfart

Na opinião do economista Waldir Quadros, o crescimento médio do PIB de 4,5% ao ano no quadriênio 2004-2007 é o principal responsável pelo aumento da renda dos brasileiros

Ao alertar sobre o risco do incremento das várias modalidades de crédito pessoal entre a baixa classe média brasileira, o economista e professor do Instituto de Economia da Unicamp Waldir Quadros considera importantes as políticas sociais do governo, sobretudo para os miseráveis e os muito pobres. Para ele, que concedeu a entrevista que segue por e-mail à IHU On-Line, a principal política “é a recuperação real do salário mínimo, com sua ampla repercussão na base do mercado de trabalho e nos benefícios previdenciários e assistenciais”. Ao tentar encontrar características do que entende como a atual classe média, Quadros acredita que ela aponta para uma “brutal concorrência individual, sem freios morais, na luta por escassas oportunidades de acesso a padrões de consumo mais sofisticados”.

Waldir José de Quadros possui graduação em Economia, pela Universidade de São Paulo, e mestrado e doutorado em Ciência Econômica, pela Universidade Estadual de Campinas, onde, atualmente, é professor associado do Instituto de Economia.

IHU On-Line - Podemos identificar realmente uma nova classe média? Quem é a “nova classe média brasileira”, que aparece nas recentes pesquisas da FGV e do Ipea, considerando a heterogeneidade dessa camada social brasileira?

Waldir Quadros - Esta “nova classe média” tem sido associada à recente expansão da também chamada “classe C”, que prefiro denominar de baixa classe média. Ou seja, em termos mais precisos, trata-se de novos contingentes populacionais que ascendem a uma camada social já existente. De um modo geral, e também nestas duas pesquisas mencionadas, este segmento tem sido caracterizado por uma determinada faixa de rendimentos, sem maiores qualificações.

IHU On-Line - Qual é a contribuição do crescimento econômico do Brasil para o aumento da renda e de pessoas pertencentes à chamada “classe média”? O senhor defende uma estagnação econômica brasileira desde a década de 1970. Como entender esse aumento da classe média num cenário de estagnação econômica?

Waldir Quadros - Sem dúvida, o crescimento médio do PIB de 4,5% ao ano no quadriênio 2004-2007 é o principal responsável por esta performance (e 2008 está no mesmo patamar). Ainda que estejamos na rabeira dos países emergentes, estas taxas são bastante superiores ao que se observou nos anos anteriores. Basta dizer que no qüinqüênio 1998-2002 a taxa média foi de apenas 1,7% ao ano. Sem falar nos míseros 1,15% de 2003. Contudo, o comportamento relativamente mais expressivo da baixa classe média reflete tanto as maiores taxas de crescimento do PIB desde 2004 quanto o fato de que este crescimento se realiza em condições macroeconômicas desfavoráveis às estruturas produtivas mais complexas e tecnologicamente mais avançadas, particularmente no que se refere ao câmbio e juros. Com isso, e outras circunstâncias da mesma natureza, os empregos e oportunidades gerados concentram-se nas faixas de menor remuneração e o movimento de ascensão social não alcança de forma mais expressiva a alta e média classe média.

IHU On-Line - O entusiasmo com os números de que a classe média cresceu pode ser verificado na realidade, nas ruas e nas vidas das famílias brasileiras?

Waldir Quadros - Esta avaliação mais sóbria da situação e do desempenho da baixa classe média destoa significativamente de uma visão eufórica, que tem sido muito freqüente na mídia e em algumas pesquisas de mercado. Entre outras razões, entendemos que este descompasso deve-se ao fato de que elas incorporam o forte e recente ciclo de expansão do consumo, uma vez que, em geral, dimensionam os estratos sociais com base no seu perfil de consumo de produtos e serviços. Acontece que este aquecimento do consumo em grande medida decorre do forte incremento das várias modalidades de crédito pessoal, sendo relativamente consensual que a renda pessoal não tem crescido na mesma magnitude. É importante registrar que estas observações não pretendem diminuir o significado deste forte aumento do consumo nas condições de vida das pessoas e famílias. Ao contrário, trata-se apenas de uma ressalva metodológica, pois entendemos que a estratificação social com base na capacidade de consumo movida a crédito, avançando muito mais rápido que a renda pessoal, fica vulnerável a interferências de “bolhas” que não se sustentam a longo prazo.

IHU On-Line - Qual é a contribuição das políticas sociais de erradicação da pobreza e da fome para o resultado que apareceu recentemente nas pesquisas? Em que medida os benefícios sociais do governo contribuem para uma heterogeneidade da classe média?

Waldir Quadros - Penso que tais políticas afetam, sobretudo, os miseráveis e muito pobres, e a principal delas é a recuperação real do salário mínimo com sua ampla repercussão na base do mercado de trabalho e nos benefícios previdenciários e assistenciais. Neste sentido, é fundamental atentar para o fato de que, embora o salário mínimo venha apresentando ganhos reais desde 1992 (com exceção de 1994 e 2003), é no período 2004-2007 que se verifica a mais virtuosa combinação entre expansão do PIB (4,5% ao ano) e do piso salarial legal (4,8% ao ano) . Ainda que no período 1998-2002 o crescimento real do salário mínimo também tenha sido significativo (4,1% ao ano), o baixo crescimento econômico (1,7% ao ano) neutralizou bastante seu impacto. Além desta mais favorável combinação entre PIB e salário mínimo real, outros elementos positivos estão presentes no período recente. Um deles é a acentuada formalização dos contratos de trabalho, que potencializa os efeitos da recuperação do salário mínimo. O outro é a maturação, aprimoramento e ampliação dos programas focalizados de transferência de renda, com significativo impacto entre os miseráveis não diretamente beneficiados pelos ganhos do piso legal.

IHU On-Line - Esse aumento da classe média é sinal de que a distribuição de renda no Brasil está melhorando?

Waldir Quadros - Os dados oficiais revelam que a distribuição funcional da renda continua piorando, com maior parcela da renda nacional sendo apropriada na forma de lucros e juros e retraindo-se a remuneração do trabalho.

IHU On-Line - Em que sentido identificamos na classe média atual posturas teóricas e políticas da sociedade capitalista e neoliberal? Quais são os padrões morais da classe média brasileira atual?

Waldir Quadros - Seguindo Wright Mills,  podemos considerar que a classe média representa a síntese das aspirações do conjunto da sociedade capitalista contemporânea. Neste sentido, atualmente ela aponta para o forte predomínio, entre nós, do individualismo e do consumismo, da brutal concorrência individual, sem freios morais, na luta por escassas oportunidades de acesso a padrões de consumo mais sofisticados.

IHU On-Line - Que mudanças esse aumento da classe média provoca na estrutura social brasileira, pensando na relação com as demais camadas sociais?

Waldir Quadros - Considero totalmente inadequado concluir da recente expansão da baixa classe média que agora temos no Brasil uma sociedade de classe média. Em poucas palavras, nas condições brasileiras, um autêntico padrão de classe média pressupõe o acesso com recursos próprios à educação de qualidade; cursos de idiomas; viagens internacionais; convênios médicos abrangentes; moradias diferenciadas; alguma das diversas modalidades de segurança pessoal; e serviços pessoais especializados (tais como, psicólogos, dentistas, oculistas, fisioterapeutas, nutricionistas etc). Reforço que tudo isso deve acontecer sem dependência das redes públicas de serviços sociais, bastante sucateadas, o que, convenhamos, está muito distante das condições da sofrida “classe C”, que, no máximo, pode ser classificada como remediada, ao se diferenciar da massa de pobres e miseráveis.
      
Leia mais...

>> Confira outra entrevista concedida por Waldir Quadros. Acesse nossa página eletrônica

Entrevista:

* As classes médias brasileiras – publicada nas Notícias do Dia do sítio do IHU em 12-09-2007.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição