Edição 266 | 28 Julho 2008

Luiz Carlos Alves Teixeira

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Patricia Fachin

“Minha vida é essa aí, ó: andar na rua para viver a vida. Sempre vou lutar pela vida, até o dia em que eu morrer.” Este frase define bem a personalidade de Luiz Carlos Alves Teixeira, 54 anos. Ele, que encontrou uma forma digna para se sustentar, juntando material reciclável para vender, perdeu a confiança dos seus irmãos que, há dois anos não o procuram, “porque sou um pobre lixeiro andando pela vida”. Antes de ser papeleiro, Luiz já trabalhou em circo, fazendo números de fogo e caminhando sobre cacos de vidro, além de ajudar seu pai a cortar lenha. São os seus pais os grandes responsáveis por Luiz ter aprendido a viver dignamente, enquanto poderia ter se rendido à marginalidade.

Morador da Vila Batista, em São Leopoldo, é com o trabalho de reciclagem que Luiz Carlos Alves Teixeira ganha a vida. E, para isso, ele conta com a solidariedade. “Todo mundo me ajuda, na Vila. Tem firmas que me dão coisas (papelão e material reciclável). Minha vida é essa aí, ó: andar na rua para viver a vida. Sempre vou lutar pela vida, até o dia em que eu morrer.” É assim que, aos 54 anos de idade, Luiz, que pôde estudar apenas até a 4ª série, garante o seu sustento. Embora já tenha trabalhado com carteira assinada, ele ainda não pode se aposentar. “Fiquei seis anos sem contribuir e agora não consigo pagar o INPS.”

Enquanto contava sua história de vida, várias vezes, Luiz afirmou que está lutando para viver a vida. Prova disso é a sua força de vontade. “Minhas duas pernas estão machucadas. Médico não dá força, e ainda pode dar remédios errados. Eu mesmo compro comprimidos para a dor e ganho força para começar.” Para ganhar o pão de cada dia, Luiz percorre a Vila Batista, passando todos os dias pela Avenida Unisinos, chegando a fazer até seis viagens por dia, quando tem bastante papelão. Quem compra o material que Luiz junta é o seu colega, “Milico”. “Uma base de R$ 150, por semana. Às vezes dá R$ 80.” É com esta renda que ele se mantém com a mulher, dona de casa, e um enteado, de 18 anos. Da primeira união, Luiz tem uma filha. Agora, ele tem outra esposa, da qual ele fala com muito orgulho. “A minha família é a minha mulher, que me dá valor. Ela é uma pessoa legal, faz tudo para mim, e eu por ela.”

Quando diz que a mulher é a sua família, não é à toa. Luiz tem oito irmãos, dois já são falecidos, mas ele parece ser sozinho no mundo. “Eles não me procuram há quase dois anos, porque eu sou um pobre lixeiro andando pela vida. Mas isso não me interessa. O que me interessa é batalhar, ter amizade com as pessoas que são legais comigo e me dão força.”

A rotina de Luiz é difícil, e nem por isso ele pensa em desistir. “Saio de casa 5h da manhã e só vou parar lá pelas 4 da tarde quando almoço. Até esse horário, trago café e pão. Não ando roubando, porque não adianta o cara roubar. Trabalhar honestamente é bom, as pessoas me ajudam. Para mim, é a mesma coisa que trabalhar em uma firma. Trabalho sábado e domingo, também. Não sei ficar parado, em casa. Não tenho preguiça, gosto de trabalhar. Só em dias de chuva que fico em casa. Mas tem vezes que boto a capa de chuva e saio.”

Antes de trabalhar como papeleiro, Luiz ajudou o seu pai, trabalhando como cortador de lenha, em Capela de Santana, município vizinho a sua cidade natal, Lavras do Sul. “Já trabalhei em circo, também. Eu fazia número de fogo e caminhava sobre cacos de vidro. Saí porque não gostava mais. Gostava de andar na rua trabalhando. Não tenho queixas da minha vida.”

Hoje, o maior sonho de Luiz também está relacionado ao trabalho. “Ter uma carrocinha para continuar trabalhando. A carroça maior é melhor que a minha carreta.” Católico, Luiz acredita fielmente em Deus. É Nele, também, que busca forças para não deixar morrer a grande lição de vida que seus pais lhe passaram. “Aprendi com os meus pais a batalhar, não roubar e ser amigo de todo mundo, que todos irão me ajudar.” A perda dos pais é a maior tristeza de Luiz que, enquanto tinha a mãe e o pai por perto, aproveitou cada momento. Hoje os momentos felizes são sinônimos de saudade.

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