Edição 262 | 16 Junho 2008

A busca de Machado de Assis pela universalidade

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André Dick e Graziela Wolfart

Segundo Ana Lúcia Tettamanzy, a obra de Machado de Assis explora a condição humana em sua diversidade e paradoxo, fazendo uso de diferentes textualidades

“Machado é considerado um clássico da literatura brasileira. Como tal, é sabidamente autor de textos que permanecem atuais, ou seja, vêm atendendo a distintos horizontes de expectativas pela sua ambigüidade e complexidade, mas também, essencialmente, pela abordagem de elementos atemporais e universais”. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Ana Lúcia Liberato Tettamanzy avalia, nesta e em outras reflexões, que Machado é um nome essencial para se compreender diversos aspectos da literatura brasileira. Tendo defendido a tese de doutorado “Metamorfoses no espelho: os ‘vícios’ nacionais no conto machadiano”, ela avalia questões como a melancolia e o nacionalismo, além de apontar as semelhanças e diferenças entre o autor de Quincas Borba e o poeta Augusto dos Anjos.
Ana Lúcia possui graduação em Letras, mestrado e doutorado em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1999). Atualmente, é professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tem experiência em ensino e pesquisa em Literatura Brasileira e Literaturas Portuguesa e Luso-Africanas, com ênfase nos seguintes temas: narrativa oral, história, identidade, modernidade, culturas populares, performance e ensino.

IHU On-Line – Em alguns de seus estudos, você desenha um comparativo entre as obras de Augusto dos Anjos  e Machado de Assis. Para além do fato de Brás Cubas ter seu corpo coberto com vermes (imagem cara à poesia de Augusto), podemos ver outros elementos em comum entre esses autores (humor, ironia, sarcasmo, pessimismo, decadência, por exemplo)?

Ana Lúcia Liberato Tettamanzy – Há diferenças explícitas entre os dois escritores, a começar pelo lugar ocupado no cânone brasileiro. Augusto experimentou a periferia geográfica, intelectual e humana, no sentido de que teve sua formação intelectual no nordeste (paraibano, sofreu influência da influente escola positivista do Recife) e, apesar de ser popular (seus versos eram recitados de cor por pessoas analfabetas ou pouco letradas), morreu pobre e abandonado pela sorte, sendo que até hoje não recebeu leituras sistemáticas da crítica (há alguns bons estudos, mas esporádicos). O carioca Machado de Assis, ao contrário, superou a origem humilde e a condição mestiça com o reconhecimento e o prestígio no Rio de Janeiro de sua época e na posteridade, tendo sido alçado ao lugar de clássico nacional.
No entanto, e por mais estranho que possa parecer, suas obras possuem pontos de contato. De fato, o tom pessimista, o sarcasmo, a visão da decadência são comuns a ambos, embora Augusto os fundamente na adesão a pressupostos filosóficos e científicos de então, incorporados de forma surpreendente em sua poesia, e Machado mimetize a retórica e os procedimentos das ciências para efetivar sua desconstrução. Suas obras conectam-se, enfim, em estratégias formais comuns, sobretudo na criação de alegorias que sinalizam para a decrepitude das instituições e dos hábitos intelectuais, sociais e culturais. O princípio da decomposição rege a linguagem de ambos: o cadáver expõe o destino de tudo que é vivo - apodrecer, retornar ao pó original, tornar-se ruína. Extrapolando a concretude dessas indicações, o espetáculo da ruína expande-se para o terreno da história, constituindo um modo de entender o passado e também o presente.

IHU On-Line – Há também, em seus estudos, uma aproximação, sob o ponto de vista da melancolia, de Machado de Assis, Fernão Mendes Pinto  e Padre Antônio Vieira.  Como isso se destacaria em sua obra? Seria a partir de uma visão sobretudo do flâneur de Baudelaire e Walter Benjamin,  da transformação de um mundo que leva o indivíduo a ficar cada vez mais recluso?

Ana Lúcia Liberato Tettamanzy – Abordo a melancolia como um traço das culturas portuguesa e brasileira que, sintetizando bastante, pode ser identificado como uma negatividade perante o tempo. O resultado dessa atitude problemática é a estaticidade, uma quase incapacidade de ação. Machado, no conto “O segredo do Bonzo”, ironicamente narra o que seria um capítulo esquecido por Mendes Pinto em sua obra Peregrinação. O princípio que une as narrativas é o velho embate entre essência e aparência, ilustrativo, no caso em questão, do gosto luso-brasileiro pelo espetaculoso, pelo mirabolante. Entre Machado e Vieira o ponto de contato foi o comportamento imobilizante do invejoso. Nos sermões, o padre atenta para uma dupla dificuldade dos portugueses: além de serem incapazes de reconhecer o brilho alheio, mostram-se incapazes de satisfazer-se com as riquezas acumuladas com as colônias. Em contos de Machado, destaco uma personagem invejosa, que padece inclusive fisicamente com a visão da prosperidade alheia, e uma personagem vítima da inércia dada sua incapacidade de tomar decisões. O efeito desses comportamentos patológicos é a melancolia, que, a meu ver, traduz impasses histórico-culturais de Brasil e Portugal e encontra na literatura uma privilegiada configuração.

IHU On-Line – A partir principalmente do texto “Instinto de nacionalidade”, quais seriam os vícios nacionais no conto de Machado de Assis? O escritor apresentaria, em sua obra, alguns traços do homem brasileiro, como Sérgio Buarque fez, por exemplo, através do homem cordial?

Ana Lúcia Liberato Tettamanzy – Com “Instinto de nacionalidade”, Machado como que responde aos críticos e escritores de sua época, e mesmo da posteridade, no que diz respeito à obrigatoriedade de um escritor representar o espaço, sobretudo a natureza exuberante, como um índice de nacionalidade. Por recusar-se a tornar seu país exótico para si mesmo, evitando olhar com maravilha o que lhe era familiar, o escritor foi acusado de afetação elitista. Foi o francês Roger Bastide,  num pequeno texto da década de 40 (“Machado de Assis paisagista”) quem, a meu ver, deu a melhor resposta a essa cobrança, afirmando que a paisagem brasileira estava interiorizada nas personagens machadianas, feitas de água, de céu, de planta. Em minha tese de doutorado, “Metamorfoses no espelho: os ‘vícios’ nacionais no conto machadiano”, propus-me, principalmente, a demonstrar a forma peculiar com que Machado dialogava com elementos tido como ausentes em sua obra. Percebi que nos contos, para além dos agregados que compartilhavam os favores da elite nos romances, estavam presentes outras realidades humanas. A começar pelos inúmeros padres, sacristãos, enfim, toda a sorte de gentes simples envoltas em assuntos da religiosidade e da espiritualidade – e isso num escritor que defendia o absenteísmo, ou o próprio ateísmo. Outro destaque foram as diversas formas textuais presentes, muitas delas de origem popular, ignoradas por boa parte da crítica que preferia (ou prefere?) buscar as influências estrangeiras no escritor. Assim, com base nos sete pecados capitais e em algumas leituras sobre a formação da cultura brasileira, acabei por sintetizar em dois pecados, a preguiça e a invejam, a síntese que o autor estaria propondo para dar conta de certas constantes em nossa cultura. Por se caracterizarem antes pela ausência de ação do que por fazer mal a alguém e por receberem sobre si os efeitos de seu mal, esses sujeitos tornam-se presa da melancolia. Assim como a cordialidade, a melancolia, de certa maneira, também atenta para a suposta harmonia das tensões dada a paralisia dos sujeitos quando, na verdade, esconde-se um perverso sistema de privilégios – quem não decide permite que outros o façam ou que, em alguma medida,  o inaceitável possa ocorrer.
 
IHU On-Line – Alguns estudos atuais focam o aspecto da afrodescendência em Machado de Assis. Como vê, com o crescimento na área dos estudos multiculturais, este aspecto na obra do autor de Quincas Borba?

Ana Lúcia Liberato Tettamanzy – Uma análise da crítica que a obra de Machado vem recebendo ao longo do tempo mostra como os “horizontes de leitura” variam conforme as perspectivas teóricas mais influentes de cada período. Não obstante a posição elevada que Machado assumiu nas letras à época de seu surgimento na cena intelectual, houve uma série de críticos da época que, enfatizando a biografia ou a raça do escritor, acusavam-no de pouca brasilidade ou de possuir um estilo problemático. Sendo assim, dada a importância que as identidades étnicas e de gênero assumem na perspectiva dos Estudos Culturais, é esperado que sejam trazidas à tona para dar conta da obra de um escritor que, como se sabe, era mestiço e mesmo assim ascendeu socialmente e ocupou postos de prestígio num ambiente hostil às raças não-brancas. Cabe lembrar a importância da leitura de Helen Caldwell,  que utilizou pressupostos da crítica feminista na contestação das interpretações consolidadas a respeito da traição de Capitu em Dom Casmurro. É natural, portanto, que atualmente se busquem na obra os elementos identitários que possam sustentar essas novas perspectivas.

IHU On-Line – Qual é a presença da sociedade e da política de sua época na obra machadiana? Como percebe, também, o cientificismo em seus livros, a exemplo de O alienista e sua postura, como percebe Merquior, de entender que o homem não deve esquecer que é um animal, "sujeito à natureza e aos seus caprichos"?

Ana Lúcia Liberato Tettamanzy – Machado usou de disfarces, como explica Antonio Candido em “Esquema de Machado de Assis”, para dizer de forma banal o que há de mais medonho. Assim, se, de fato, Machado foi um analista e um crítico das instituições da sociedade e da política da sua época, sua capacidade de dar representação ao “humano demasiado humano” permanece desafiando os leitores. Quer dizer, atacou as raízes das mazelas sociais e humanas protegido pela linguagem alegórica e pela agudeza da ironia, motivo pelo qual era lido principalmente por aqueles que constituíam o alvo maior de sua denúncia, as classes abastadas da elite imperial e depois republicana.
 
IHU On-Line – Alguns consideram Machado como um escritor de “costumes”, fazendo apenas uma representação literária sobre o seu período, com todos seus problemas. Isso é plausível?

Ana Lúcia Liberato Tettamanzy – Machado é considerado um clássico da literatura brasileira. Como tal, é sabidamente autor de textos que permanecem atuais, ou seja, vêm atendendo a distintos horizontes de expectativas pela sua ambigüidade e complexidade, mas também, essencialmente, pela abordagem de elementos atemporais e universais. Para além dos referenciais locais e históricos, portanto, sua obra explora a condição humana em sua diversidade e paradoxo, fazendo uso de diferentes textualidades – mistura formas e linguagens, dialoga com tradições distintas, enfim, não se resume a um inventário de costumes. É o “homem subterrâneo”, conforme definição do crítico Augusto Meyer, que universaliza sua condição particular porque bebeu de todas as fontes a que teve acesso, do humor inglês ao burburinho prosaico das ruas, mas também porque enfrentou o enigma maior, o ser humano em sua imprevisibilidade e contingência.
 
IHU On-Line – Há vários estudos respeitáveis sobre Machado (como os de Roberto Schwarz, José Guilherme Merquior). Qual deles acharia básico para que o leitor pudesse entender Machado de maneira mais adequada?

Ana Lúcia Liberato Tettamanzy – São mais conhecidos os estudos que procuraram dar conta de princípios gerais da ficção machadiana, como o sistema das “idéias fora de lugar” de Schwarz ou as abordagens de John Gledson sobre as relações com a história e a sociedade brasileira. No entanto, dada não só a complexidade como a amplitude da obra, convém dar conta de outros aspectos. Há importantes estudos sobre a escritura, examinando as bases da ficção machadiana – um deles, nem tão recente, é “Retórica da verossimilhança”, de Silviano Santiago.  Luiz Costa Lima,  Alfredo Bosi  e José Paulo Paes  produziram análises que detalham os mecanismos da linguagem machadiana; na mesma linha temos a leitura de Enylton de Sá Rego (O calundu e a panacéia). Há que destacar ainda a pequena (em termos relativos, claro) fortuna crítica sobre a crônica e o teatro machadianos, que vêm aos poucos recebendo leituras da crítica especializada. Por fim, não se pode ignorar a tendência dos leitores modernos em buscar os meandros da vida privada dos artistas e intelectuais, motivo pelo qual têm sido publicadas novas biografias. Todas essas possibilidades justificam-se dada a variedade da cena contemporânea e dada a necessidade de evitar a monotonia do pensamento com o acesso à pluralidade de discursos e perspectivas.

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