Edição 262 | 16 Junho 2008

Machado e a relatividade do comportamento humano

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Na opinião de Domício Proença Filho, o alto índice de universalidade e de polissemia e o trabalho na linguagem da sua obra ficcional são as razões para que Machado de Assis seja considerado o melhor escritor brasileiro

Para Domício Proença Filho, a obra machadiana mantém sua atualidade porque “consegue, a partir de tramas simples, mobilizar a reflexão do leitor na direção de uma pluralidade de aspectos peculiares à condição humana”. O machadólogo, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro da Academia Brasileira de Letras fala, nessa entrevista feita por e-mail pela IHU On-Line, sobre a importância e a contemporaneidade da produção literária de Machado de Assis. Doutor em Letras e livre-docente em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Santa Catarina, Domício Proença Filho é autor de, entre outros, Estilos de Época na Literatura (15 ed. rev. e ampl. 4.ª reimpressão. São Paulo: Ática, 2002) e Capitu – Memórias póstumas (3. ed. Rio de Janeiro: Artium, 2005).

IHU On-Line - Quais são as razões que você indica para que Machado de Assis seja considerado o melhor escritor brasileiro?

Domício Proença Filho - O alto índice de universalidade e de polissemia e o trabalho na linguagem que se configuram na sua obra ficcional. Machado consegue, a partir de tramas simples, mobilizar a reflexão do leitor na direção de uma pluralidade de aspectos peculiares à condição humana. Entre eles, ciúme, adultério, erotismo feminino, comportamento religioso, à brasileira, ditadura da aparência, jogo da verdade e da mentira, cobiça, vaidade, relação entre o ser e o parecer, oscilações entre o bem e o mal, conflito entre o absoluto e o relativo. Acrescente-se a excelência da crônica, em que o Bruxo do Cosme Velho é pioneiro.

IHU On-Line - Que livro você considera a obra-prima de Machado de Assis?

Domício Proença Filho - Dom Casmurro. Seguido de perto por Esaú e Jacó, tecnicamente primoroso, em matéria de estruturação ficcional.

IHU On-Line - Você percebe alguma influência de Machado de Assis na Literatura Brasileira contemporânea? Qual (quais)?

Domício Proença Filho - Marcante. Notadamente na assunção da narrativa por um personagem-narrador e na dominância da reflexão sobre a ação na trama ficcional, presente em inúmeros romances e contos contemporâneos. Um destaque especial: Guimarães Rosa. No Grande sertão: veredas. Repare que Rosa retoma e amplia a viagem de memória, motivo dominante em Dom Casmurro e nas Memórias póstumas de Brás Cubas e que perpassa o processo literário brasileiro. Basta lembrar Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antonio de Almeida , São Bernardo, de Graciliano Ramos,  e Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade .

IHU On-Line - Por que Machado de Assis não é considerado um escritor popular? Que caminhos você indicaria para que a obra de Machado pudesse ser popularizada?

Domício Proença Filho - A popularidade é, no caso, relativa. Sabemos que o contingente de leitores brasileiros é pequeno: 1,8% per capita per annum, com exceção para Porto Alegre, que registra 5,6 ou 5.8 %, e para Passo Fundo, com 6.0%, dados de 2007. E não se restringem aos textos literários. Admitida a pouca presença de Machado entre os leitores, ela se deveria à predominância da reflexão sobre a ação, que marca os romances e os seus contos. O comum das pessoas, em geral, busca no livro momentos de prazer e, nessa direção, se interessa, em primeiro plano, pelo enredo. Os chamados “mais vendidos”, audiência da telenovela, folhetim eletrônico dominante na nossa contemporaneidade o evidenciam claramente. Caminhos? O potencialmente mais eficiente: a escola, agência cultural por excelência, capaz de agir na direção do cultivo do hábito da leitura. Bibliotecas populares também podem ajudar bastante.

IHU On-Line - O seu romance, Capitu – Memórias póstumas, pode ser considerado um exercício de heteronímia pós-moderna?

Domício Proença Filho - Em nenhum momento, o livro foi pensado intencionalmente com esse objetivo. A motivação do autor está explicitada no prefácio. Assumido. Mas creio que sim. O texto reveste-se pós-modernamente de dimensão desconstrutora e crítica. No limite. Uma vez que era fundamental não mostrar os andaimes do edifício. Alguns críticos têm situado o romance nesses espaços. Falta-me, como autor, o necessário distanciamento para uma avaliação isenta. Deixo a avaliação com vocês.

IHU On-Line - Certamente, a Academia Brasileira de Letras evoluiu e se transformou ao longo de sua existência. Porém, poderiam ser feitas comparações entre a Academia que Machado criou e o que ela é hoje?

Domício Proença Filho - Ao longo dos seus mais de cem anos, a ABL consolidou-se, ganhou autonomia e auto-suficiência. Ampliou espaços de ação e de repercussão junto à sociedade brasileira. Modernizou-se. Freqüenta a internet. Desenvolve uma programação cultural intensa. Dos tempos de Machado, guarda a sua fidelidade a alguns aspectos da tradição, associados à abertura para a contemporaneidade. Continua sendo uma casa da amizade, freqüentada pelo convívio cordial da divergência e da convergência. E busca assegurar o culto da língua e da literatura nacional, cláusula pétrea do Estatuto.

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