Edição 259 | 26 Mai 2008

Entender a materialidade do universo em sua plenitude solidária

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Patricia Fachin, Moisés Sbardelotto e Graziela Wolfart

Para Marise Borba, a nanotecnologia representa uma possibilidade para que as pessoas passem a olhar a vida de outro modo

“Nós não entendemos, muitas vezes, por exemplo, como é que um tsunami, um furacão, um ciclone funcionam e porque eles ocorrem, sem que nos remetamos a fenômenos que tenham por base explicações ao alcance dos sentidos e concebíveis mediante a aplicação de escalas de valores de grandezas que compreendemos, porque que nos são familiares. Mas escapa de nós o que está acontecendo naquela considerada catástrofe, o mundo do pequeno, onde estão a maioria das respostas para esses fenômenos, justamente na escala nanométrica. Aí é que entra a grande questão da inteligência humana de saber trazer isso para o aprendizado da vida.” É dessa forma que a professora Marise Borba descreve a importância das nanotecnologias para a criação de novos espaços e novas identidades, tema que ela conduzirá em seu minicurso, na tarde da próxima quarta-feira, dia 28 de maio, durante o Simpósio internacional Uma sociedade pós-humana? Possibilidades e limites das nanotecnologias. Na entrevista que concedeu por telefone para a IHU On-Line, ela ainda afirma que “o mundo tem cada vez mais a nossa cara, humana, demasiadamente humana. Antes, em outras sociedades, as coisas eram explicadas pela lógica de Deus, lógica divina, ou pela lógica da própria natureza, do natural. Hoje, as coisas que acontecem têm um perfil muito mais humano, e é por isso que digo que o mundo talvez nunca tenha sido tão humano quanto agora”.
Marise Borba da Silva possui graduação em Ciências Biológicas, pela Universidade do Extremo Sul Catarinense - UNESC e mestrado em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Tem doutorado pelo Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas, com a tese Nanotecnologia e a condição humana: a radicalidade técnica contemporânea, os questionamentos éticos do homo viator e a visão de natureza. Atualmente, é aposentada da Secretaria de Estado da Educação, de Santa Catarina, e professora autônoma de instituições universitárias do Estado de Santa Catarina. Confira a entrevista:

IHU On-Line - Em que medida a nanotecnologia e a manipulação de materiais em escalas atômico-moleculares e macromoleculares configuram novas identidades, valores e conceitos?
Marise Borba
- Quando pensamos na intimidade da matéria, precisamos pensar necessariamente em coisas muito pequenas, em estruturas atômicas moleculares, em arranjos não perceptíveis aos nossos sentidos comuns. Então, com a nanotecnologia, uma tecnologia que exige uma escala de medida muito precisa, da ordem da bilionésima parte do metro, nós somos forçados a mudar o nosso modo de “ver” essas pequenas coisas, esses pequenos arranjos, mediante a formação de novas combinações, novas propriedades, constituindo coisas novas e diferentes. Inclusive, é preciso fazer uma abstração bastante profunda para tentar compreender como é que diferentes elementos, tão pequenos, existentes na natureza, por serem assim, da ordem da escala nanométrica, vão se combinando e recombinando, a ponto de assumir novas propriedades e novos comportamentos que não teriam se trabalhados numa escala maior de grandeza. Com base em transformações dessa natureza, às custas de tantas combinações, recombinações e reajustes, é que a vida tem se produzido até hoje e alcançado o estágio a que chegou. Entendo que a nanotecnologia não se trata de algo bom ou mau. Ela representa uma possibilidade para que as pessoas passem a olhar de outro modo a vida, no mais íntimo das pequenas coisas, dando sentido à diversidade imensa e ao grau de complexidade existentes, que nos causam sempre muito fascínio e nos oferecem um mundo que foge à monotonia, a exigir que tenhamos novos olhares, novos conceitos e a também revisitar nossos valores em função disso.

IHU On-Line – Quais são os desafios da sociedade para lidar com as nanotecnologias? Como os nanômetros nos ajudam a compreender melhor o mundo e a natureza na qual estamos inseridos?
Marise Borba
- Em primeiro lugar, de um modo geral, a grande maioria do povo brasileiro tem dificuldades no que se refere aos conhecimentos matemáticos, ao domínio de cálculos mais abstratos, inclusive para lidar de uma forma mais precisa com o sistema de medidas, no que diz respeito ao que é da ordem do milímetro e do mícron. Se lidar com a escala de medidas milimétricas e micrométricas já é difícil, sobretudo para quem não tem uma convivência mais freqüente com tais noções de medida, imaginemos como deve ser em relação à escala nanométrica! Sou professora há muitos anos e nas escolas eu sempre percebi isto: as pequenas coisas do mundo passam, em sua maioria, despercebidas, sem serem vistas muitas vezes e até sequer imaginadas. Então, nós podemos ter um grande ganho nesse sentido de educar nas escolas, também promovendo uma base matemática expressiva que forme pessoas, não estritamente para o cálculo utilitário das coisas, mas para um cálculo que possibilite relações com o modo como a vida acontece permeando as pequenas coisas, as pequenas relações. Esse aprendizado da medida nanométrica representa, também, a possibilidade de minimizar grandes problemas que são muitas vezes supérfluos, na maneira como são tratados, além de contribuir de algum modo para educar e reeducar a sensibilidade das pessoas, que foi bastante afetada pela cisão razão-emoção, com predomínio da primeira sobre a segunda. Poderemos, a partir da medida nanométrica, entender a materialidade do universo de uma outra forma, em sua plenitude solidária, aberta a tantas criações, desde que solidários sejam os modos de trabalhá-la, de entender como é que as coisas são feitas, como é que elas se transformam, como é que elas mudam, justamente por esse caráter solidário intrínseco à vida, que não se melindra frente a todas as formas possíveis – e até difíceis – de combinações e reajustes. Não entendemos, muitas vezes, por exemplo, como é que um tsunami, um furacão, um ciclone funcionam e porque eles ocorrem, sem que nos remetamos a fenômenos que tenham por base explicações ao alcance dos sentidos e concebíveis mediante a aplicação de escalas de valores de grandezas que compreendemos, porque que nos são familiares. Mas escapa de nós o que está acontecendo naquela considerada catástrofe, o mundo do pequeno, onde está a maioria das respostas para esses fenômenos, justamente na escala nanométrica. Aí é que entra a grande questão da inteligência humana de saber trazer isso para o aprendizado da vida.

IHU On-Line - A senhora diz que nunca fomos tão humanos como agora. Falar em pós-humano, então, é uma ilusão?
Marise Borba
- Um autor que li e do qual não recordo o nome agora diz que essas expressões pós-moderno, pós-humano e outras afins são modismos para países ricos. E eu concordo nesse sentido e diria até que esse assunto nunca esteve tão na moda como agora. Se observarmos bem, o mundo tem cada vez mais a nossa cara, humana, demasiadamente humana. Antes, em outras sociedades, as coisas eram explicadas pela lógica de Deus, lógica divina, ou pela lógica da própria natureza, do natural. Hoje, as coisas que acontecem tem um perfil muito mais humano, e é por isso que digo que o mundo talvez nunca tenha sido tão humano quanto agora. Digo isso porque o homem dos séculos XX e XXI se manifestaram de tal modo no mundo, como nenhum outro, como se  o próprio mundo fosse já um espelho em que o homem só enxergasse a sua imagem. Então, nesse sentido eu não vejo que exista o “pós-humano”; não consigo entender que elementos tão pequenos da matéria, que fizeram por longos e incontáveis anos essa combinação conseguindo constituindo o ser humano, tenham se perdido no nada. Penso que hoje vivamos um momento em que não temos muitas denominações para dar às coisas porque estamos, de certo modo, impactados com tantas mudanças. Assim, vejo o “pós-humano” muito mais como uma nova expressão, ou um “apelido momentâneo” para nomear o que ainda me é estranho, desconhecido, que foge ao meu entendimento.

IHU On-Line - Por que a humanidade se deslumbra com tantas transformações, embora elas nem sempre tragam apenas o progresso? De onde surge essa ânsia por produtos e técnicas mais rápidas, eficientes e ao mesmo tempo, menores?
Marise Borba
- Quem é da minha geração assistiu a filmes da Mulher Biônica. Desde aquela época, a ficção cientifica atraía muito a atenção das pessoas, pois criava um cenário de aventuras e mudanças. Além de criar esse imaginário fantasioso, o mundo da ficção científica gera muito dinheiro. Porque precisamos, por meio das nanotecnologias, perceber a escala do que vão exigir de nós: um aperfeiçoamento muito grande, uma inteligência muito aprimorada, uma precisão muito grande para lidar com as coisas.

IHU On-Line - Especialistas tratam a nanotecnologia como a ciência da salvação. Terá a nanotecnologia capacidade de alterar radicalmente a vida humana? Em que sentido? De fato caminhamos para um avanço?
Marise Borba
- Eu não acredito em nada que se possa dizer que é a salvação, porque nem Cristo, que veio como “salvador do mundo”, conseguiu isso. A nanotecnologia é uma ferramenta, uma possibilidade de melhorarmos algumas coisas, de compreendermos e mudarmos outras. Entretanto, ela também pode ser uma possibilidade muito grande de destruição, de perigo. É aquela questão: dependendo de como for encarada, daquilo que se fizer dela, dos interesses em jogo, ela pode se tornar um grande malefício. Eu não a vejo como redentora nem como salvadora de coisa alguma. Vejo, sim, como possibilidade, até porque ela tem um caráter muito interdisciplinar. Eu mesma, no meu estudo, tive que recorrer a muitas áreas para entendê-la. Precisei estudar Física Quântica, Biologia, Geometria, Sociologia, Filosofia, Antropologia, História, Geografia e outras mais. Acho que a nanotecnologia demonstra a solidariedade necessária entre as mais diversas áreas do conhecimento. Ela precisa de outras áreas. Não vejo essa divindade nem esse poder ilimitado com que muitos estão vendo a nanotecnologia.

IHU On-Line – E quais serão as possibilidades? O que será diferente nesse novo mundo das nanotecnologias?
Marise Borba
- Como possibilidades eu vejo muitas. Por exemplo, tanto na produção de medicamentos com menos efeitos colaterais, como o barateamento de produtos ainda caros e pouco acessíveis pela escassez de matérias-primas, também por sofisticadas exigências tecnológicas que exigem conhecimentos muito especializados e, também, contribuições aos problemas da ordem da degradação ambiental. Até porque o “pequeno dispositivo” implica numa economia de energia. Hoje, existe uma série de produtos criados à base de material nano e que produzem muitos benefícios, como, por exemplo, os ligados à implantodontia. Temos ainda a produção de cerâmicas que reaproveitam materiais considerados “poluentes” e incapazes de reutilização, vidros que não sujam, lápis econômicos, mais resistentes e com outras propriedades novas, como os produzidos pela Faber Castell, sem falar na área da informática, com a fabricação dos nanochips.

Então, nesse sentido, as nanotecnologias podem nos levar não só ao barateamento de produtos, mas à obtenção de produtos mais eficientes. Basta imaginarmos o que era uma válvula de rádio há uns 20, 30 anos atrás! Ou mesmo um rádio, um gravador etc. Eram enormes, consumidores de mais espaço e de muita eletricidade. Hoje, temos a possibilidade de economizarmos mais energia, com novos produtos, que sejam fabricados para este fim. Quanto mais nos relacionarmos, mais nos comunicarmos, mais trocamos. Tanto melhor! Seremos partícipes desse processo de criação e poderemos acompanhá-lo de perto e intervir com mais conhecimento de causa no rumo de muitas decisões, sem esquecer do domínio de conhecimentos que poderemos alcançar. Eu nunca vi, em toda a minha vida, como educadora – e são mais de 30 anos -, se falar tanto de uma tecnologia, de um conhecimento novo, com curiosidade e expectativa como sobre nanotecnologia. Ela chama a atenção, deixa as pessoas interessadas, atrai e espanta. No entanto, ela também encanta, porque senão não teriam tantos a criticá-la quanto tantos empenhados em explicar a que ela veio, neste preciso momento tão cheio de dilemas de todo tipo em que o mundo vive.

IHU On-Line - A senhora afirma que o “nanomundo” é magicamente colocado aos nossos olhos e nos leva a crer que vivemos uma crise de identidade. Isso quer dizer que devemos deixar a vida seguir seu ciclo natural? A senhora percebe isso como uma contradição? Vivemos uma crise e, ao mesmo tempo, precisamos de mais coisas e mais rápido?
Marise Borba
- Estudamos diferentes sociedades. Por exemplo, com o ingresso do capitalismo, com Revolução Industrial mais avançada, por exemplo, houve mudanças. E que mudanças! E nós estamos mudando junto com o mundo. É o mundo que nos muda, ou somos nós que mudamos o mundo? Ou tudo vai acontecendo simultaneamente? Logo, ao mesmo tempo em que estamos vivendo essa crise de não saber para onde ir, estamos assustados exatamente porque não estamos sabendo como agir. Mas o mesmo ocorreu com o pré-histórico, com o homem na Antiguidade, o da Idade Média, enfim, todos eles também se depararam com novidades e, apesar disso, a vida continuou. Assim, vejo que a nanotecnologia irá proporcionar algo a mais lançando novos desafios para os seres humanos. A única grande diferença, me parece, em relação ao momento de hoje e ao de outras épocas anteriores, com suas estrondosas mudanças, é que agora nós temos a capacidade de parar, pensar e refletir sobre o que está ocorrendo, se quisermos, com mais “juízo”, com mais participação, mais acesso ao conhecimento.

IHU On-Line - A senhora acha que o homem já está preparado para lidar com essas nanoparticulas?
Marise Borba
- Não, de modo geral não está. Há ainda um desconhecimento muito grande sobre nanotecnologia nas sociedades. Acho que esse conhecimento ficou muito tempo limitado a laboratórios, e não houve uma preocupação de socializar esse assunto. Por isso, penso que a primeira coisa a ser feita é disseminar esse conhecimento para que as pessoas possam discutir. Para compreendermos os limites éticos das nanotecnologias, precisamos desenvolver também conhecimentos específicos. Somente debatendo o tema, amplamente, conseguiremos fazer com a nanotecnologia não se transforme numa tecnologia dominada por poucos. Por isso, esse momento é crucial para conversarmos, desde com crianças e jovens, até adultos interessados no assunto, para que também compreendam com antecedência esses processos de mudança e possam opinar, debater, decidir, conversar mais sobre o assunto etc. Para surpresa minha, meninos e meninas  entre 9 e 13 anos com quem conversei, falam de nanotecnologia de uma forma incrível, num tipo de conversa que eu não tive com alguns adultos com os quais trabalhei. As crianças falam disso de uma forma muito natural.

IHU On-Line - Se essa escala nanométrica sempre existiu, podemos conviver com outros objetos ou seres incomuns, sem saber? Há possibilidade de existir um universo paralelo?
Marise Borba
- Os documentários Quem somos nós I e II, Universos paralelos, entre outros, discutem a existência de outros mundos. O grande questionamento destes filmes é justamente esse: estamos sozinhos no universo? A tendência é pensar que nós, seres humanos, terráqueos, somos os únicos e os melhores, os onipotentes. Eu mesma nunca tinha pensado na possibilidade de existir um outro mundo. Entretanto, passei a questionar: por que só nós podemos ter um Planeta e ter direito exclusivo à vida? Com o surgimento dos estudos das áreas que lidam com coisas nanométricas, não estamos conseguindo dar respostas a todas as coisas. Estamos nos preparando para um novo aprendizado e, certamente, aprenderemos que existem coisas diferentes de nós e precisamos aprender a conviver com elas.

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