Edição 352 | 29 Novembro 2010

IHU Repórter

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Márcia Junges

Artes –

A arte permite que nos sensibilizemos. Através dela nos tornamos mais capazes de perceber a profundidade das coisas e acontecimentos. Atualmente me preocupa a incapacidade das pessoas para se sensibilizarem com o belo. Parece que a humanidade continua bárbara, em certo sentido. Nossos jovens não têm mais “tempo” para compreender temas mais profundos vinculados ao sentido da vida, como se costumava apreciar as tragédias gregas. Como fazer um jovem apreciar Vidas Secas, por exemplo, afinal, o Brasil possui suas tragédias peculiares. O mundo está muito cibernético e é necessário se ausentar dele às vezes para compreendê-lo melhor. A música tem a capacidade de nos aproximar de Deus. No meu trabalho examino as obras artísticas e literárias, sobretudo a música, através do Direito, da propriedade intelectual. Tanto a arte quanto a técnica estão sempre presentes no meu cotidiano. Também atuo na área concorrencial, na proteção a patentes, know-how e contratos de transferência de tecnologia. É gostoso dialogar com tantas áreas do conhecimento, pois artistas, editores, escritores, músicos tanto quanto físicos, químicos, engenheiros, e empresas de tecnologia, gestores da cultura, todos precisam de propriedade intelectual. Minha função é prestar essa assessoria e ensinar outros a prestá-la.

 

Desafios da docência – Observo o quanto algumas situações permitem que o melhor ou o pior de nós venha para fora. Pois espero que, como professora, venha o melhor para fora. Como professora, noto, com espanto, as peculiaridades desse ser “pós-humano”, fruto da sociedade digital. Hoje, é extremamente difícil ser professor, em especial para os primeiros semestres. Lidar com um aluno que me diz “Professora, pela primeira vez vou ler um livro inteiro” é algo absurdo. E o aluno que diz isso espera ver o professor sorrir de satisfação. Eu obviamente fico chocada. Não dá para sorrir e ficar chocada ao mesmo tempo. Preocupa-me o plágio nos trabalhos. Semana passada a OAB começou um debate solicitando a aprovação de uma lei que trate de punições para quem compra trabalhos. E vejo que há também necessidade de se punir quem vende. A figura do Ghostwriter (escritor fantasma) é folclórica, e o livro “Budapeste” de Chico Buarque é sensacional nisso. Mas o fato é que não é possível formar acadêmicos se as pessoas podem comprar teses e dissertações em 8 vezes pelo cartão de crédito. Isso é escandaloso. Acho que uma das grandes dificuldades para o professor hoje é entender que, apesar de ter estudado para lecionar determinado conteúdo, também precisa ensinar boas maneiras... e com amor. Não estou dizendo que consigo isso, mas que esse é um desafio permanente. Os alunos acham que o que a tecnologia permite é lícito e moral. Essa relação não existe. Não é porque você possui uma câmara digital que te permite tirar fotos que você pode usá-la e fazer o que quiser com as fotos das pessoas, colocando na internet, etc. Isso só para citar um exemplo entre centenas. Isso é preciso ensinar. E isso faz parte do meu trabalho.

Ser mulher hoje - As mulheres ainda são bastante discriminadas, como demonstra o relatório da ONU deste ano. O Brasil inclusive regrediu, segundo o relatório. Noto que uma mulher sempre tem que sofrer mais para alcançar seus objetivos. No Brasil não são raros os casos em que ainda precisa ser duas ou três vezes melhor do que o homem para atingir a mesma posição que ele ocupa. E se você for uma mulher negra, é ainda mais difícil: é preciso ser quatro, cinco vezes melhor do que um homem. Essa é a nossa realidade. É muito grave e jurássica. Vejo que ainda temos um longo caminho nesse sentido. Na política o Brasil tem dado bons exemplos. A peculiaridade de gênero não pode dificultar o gerenciamento, pelo contrário, a sensibilidade não é um privilégio feminino ou masculino, nem mesmo a ética, a força de vontade, a inteligência, o talento ou a coragem. O Brasil está caminhando mais lentamente nesse sentido do que alguns países, e não precisaria ser assim.

Religião – Sou feliz na minha relação com Deus. É uma relação tumultuada, de desafio permanente, e sei que não é fácil para Ele. Aprendi o que significa “temer a Deus” de um modo muito especial, e isso me permite ter muita coragem e aceitar muitos desafios. Você não precisa temer mais nada, se teme a Deus, mas esse temor é algo que só a experiência de Deus pode explicar. Antes de ir para a Índia, tive uma experiência religiosa forte. Recebi um atendimento fantástico e fiz a experiência do retiro espiritual, algo importante e que me preparou para aquela fase no Oriente. Acabei percebendo que o jesuíta tem muito de budismo, é extremamente aberto para o diálogo religioso e o que importa é estar com Deus, e não o caminho que se encontra para (re-ligar/reli-gião) com Deus. O caminho depende de cada um. Para você aquele pode ser melhor, para mim, este. Isso permitiu que eu não me deslumbrasse com a religião na Índia, pois eu já tinha motivos suficientes para me deslumbrar com Deus. Faço meditação para tentar sempre ouvir melhor, e também para dominar o tempo, que nos atropela inexoravelmente. É difícil explicar isso, mas é a resposta para a seguinte questão: “Como é possível experimentar a eternidade se ainda estamos vivos”? Essa pergunta eu tive que responder e respondi. Talvez um dia eu publique algo que escrevi sobre isso. Mas é uma experiência pessoal, cada um tem a sua. Por muito tempo lamentava ir e sair do retiro, pois a paz que se encontra é fantástica. Hoje sei que não é preciso sair nem ir a lugar algum. Todas as respostas estão dentro de nós, um templo muito particular, que sempre nos acompanha, se desejarmos.

Instituto Humanitas Unisinos – Acompanho a revista. O IHU em si é fundamental na Unisinos. Penso que é o coração da universidade. É um local que ajuda a refletir temas de fronteira. Presta os mais diversos auxílios e representa, como vejo, uma sala de entrada para os ingressantes e um braço estendido à comunidade.

Unisinos – Desde 1992, quando fui contratada, muita coisa mudou na universidade. De certa forma sinto-me parte da transformação da Unisinos. Vários redemoinhos passaram por aqui. O fantasma da mercantilização do ensino é um deles, e a Unisinos tem uma posição clara, que é apostar na excelência e qualidade do ensino. Mas esse não é o maior desafio da instituição hoje. O maior desafio é de gestão. O maior desafio mesmo é a própria gestão em si, de hoje, que precisa conviver com teorias contemporâneas da amoralidade maquiavélica, do sucesso do empreendedorismo e da inovação. Livros sobre como aumentar o poder nas organizações são lidos avidamente, é a moda da autoajuda nos negócios, que parte do ponto de vista que a justiça não existe, e que o poder segue nas mãos dos que são simplesmente hábeis politicamente. Enquanto isso os valores jesuítas não convivem bem com o poder, pelo contrário. O jesuíta fala em servir. Servo de Deus. Veja que não é fácil hoje em dia administrar uma universidade que preza a excelência. A famosa oração de Santo Inácio é uma das coisas mais difíceis que eu já vi de se praticar. A mais difícil. Mas eu acredito plenamente que é justamente por conhecer o valor de servir que a Unisinos é capaz de sempre se renovar e encontrar saídas para os problemas. A Unisinos serve de grande exemplo de competência em meio à crise, conseguiu sempre se renovar em meio a grandes crises. E agora conseguimos uma deferência importante pelo MEC, que valorizou as conquistas dos cursos. É a excelência vencendo o pragmatismo puro. Todos nós ganhamos com isso, todos aprendemos com isso, o que é muito motivador.

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