Edição 347 | 18 Outubro 2010

Ricci, um precursor da globalização?

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Márcia Junges | Tradução Benno Dischinger

 

Ciências naturais ou matemáticas aplicadas

Astronomia e cosmografia
Desde seu primeiro ingresso na China, Ricci havia praticado a astronomia com as disciplinas conexas da gnomônica e da metereoscopia. Não sabemos se teria praticado de certo modo a diótrica, ou seja, a ciência das lentes aplicadas à potenciação da visão ótica. Os seus mapas geográficos, em particular as edições de 1602 e 1603, dos quais chegaram exemplares até nós, constituem os principais documentos de suas anotações astronômicas. Para o restante, aprendemos das Cartas e da Entrada informações sobre sua prática astronômica, expressa principalmente na construção de instrumentos de medida, de esferas armilares, de globos celestes e terrestres, de relógios solares de todo gênero. Ricci assume a astronomia como ciência matemática e instrumento de conhecimento e, ao mesmo tempo, como meio para adquirir crédito ante os chineses, cujos astrônomos ele desafia na previsão dos eclipses, para adquirir crédito ulterior que lhe permitisse realizar a obra mais importante em todo o império: a reforma do calendário. Esta, por sua vez, se transformaria num crédito definitivo que ajudaria imensamente a estabilização da religião católica na China. A história demonstrou que o plano ricciano de estabilização do cristianismo na China mediante as ciências, em particular a astronomia, era realista: os seus coirmãos tornar-se-ão diretores do observatório astronômico de Pequim e reformarão o calendário chinês. O imperador Kangxi  emanará, em 1692, um decreto de livre pregação do cristianismo. Serão as contradições internas à Igreja Católica, as divisões entre as ordens religiosas, a ignorância, a presunção e a arrogância da cúria romana que destruirão o plano lucidamente concebido pelo jesuíta de Macerata.

IHU On-Line - Quais foram as alterações introduzidas por Ricci na China nos ritos e nas vestimentas da tradição cristã? Como Roma recebeu essas alterações?

Filippo Mignini – 1. A mais vistosa modificação, na ótica da adaptação, se referiu à vestimenta, ao feitio do cabelo e da barba e ao status externo nas relações sociais. Logo após o ingresso em Zhaoqing, Ricci e Ruggeri são convidados a adotar o status de monges budistas, com os cabelos e a barba raspados, com o saiote típico destes religiosos e seu comportamento exterior na sociedade. Quando, em torno de 1594, Ricci compreende que este status não é útil para sua missão e para obtenção de seus objetivos, pede e obtém poder para mudá-lo naquele de “letrado e pregador”. Faz tornarem a crescer cabelos e barba, endossa a veste de seda dos letrados e assume seu status exterior: assume secretários e servidores que o transportam em liteira, tornando-se para todos o letrado ou confucionista ocidental. Estas mudanças foram adotadas por Ricci também na consciência que na China o status exterior é a expressão natural e necessária do papel e da posição social de um indivíduo. Tendo compreendido que devia adquirir autoridade aos olhos dos chineses, para poder dar crédito também à própria religião, Ricci não transcurou nenhum meio para conseguir o próprio objetivo.
2. Nas cerimônias litúrgicas as mudanças foram principalmente duas: a introdução da língua chinesa e a anexação, em alguns casos, como nos funerais, do cerimonial chinês ao cristão. Por exemplo, por ocasião da morte do pai de Xu Guangqi, como da morte do próprio Ricci, foi associada à cerimônia cristã também o cerimonial fúnebre chinês.
3. Durante a vida de Ricci, não houve particulares problemas da parte de Roma. As mudanças eram integralmente autorizadas pela Companhia de Jesus (e eram previstas nas Constituições de Inácio, que prescrevia aos próprios missionários assumirem o status exterior do país no qual se encontravam) e esta conseguia apresentá-las à Corte Pontifícia de modo que fossem aceitas.

IHU On-Line - Qual era o comportamento da Igreja contemporânea a Ricci em relação à sua missão chinesa? E mais tarde, qual tem sido o comportamento adotado por Roma?

Filippo Mignini - Tendo chegado a Roma a notícia dos sucessos das missões jesuíticas no Japão e na China (Ricci e Ruggeri se tinham estabelecido em Zhaoqing em setembro de 1583), o Papa Sisto V , em sinal de festa e de propiciação, concedeu à Companhia de Jesus um jubileu plenário no decurso de 1586, recordado pelo próprio Ricci com estas palavras: “Sabidas estas novas na Europa e em toda a Cristandade, se fez por elas a festa que em semelhantes situações costuma fazer a piedade cristã. O Santo Padre Sisto V concedeu a toda a Companhia um Jubileu plenário que foi recebido com muita devoção por todos, com a intenção que todos solicitassem ao Senhor pela nova Cristandade da China e do Japão” (E 156). Durante a vida de Ricci não se assinalam particulares dificuldades da parte da Cúria romana.
Logo após a morte de Ricci, o próprio sucessor  Longobardo começou a levantar algumas reservas em torno da tradução do termo Deus pelo chinês Tian (Céu) e Tianzhu (Senhor do Céu). Abriu-se uma discussão no interior da Companhia, envolvendo por muitos anos doutos jesuítas e estendendo-se também aos representantes de outras ordens religiosas que, entrementes, chegaram pelo caminho aberto pelos jesuítas. A disputa logo se ampliou também à valoração que Ricci havia dado da moral confuciana, julgada demasiado favorável e lesiva das peculiaridades irrenunciáveis da moral cristã. Enfim - tal questão foi levantada pelas outras ordens religiosas contra os jesuítas - e se pôs em discussão a permissão que Ricci havia concedido aos confucianos convertidos ao cristianismo de continuarem a praticar os ritos periódicos em honra de Confúcio e aqueles reservados aos antepassados. Da última questão assumiu o nome todo o debate que envolveu a Igreja chinesa por tudo o século XVII e nas primeiras décadas do século XVIII, os quais se concluíram com as condenações de Roma (1704 e 1742) e a expulsão dos missionários ocidentais da China, com a consequente proibição de pregação do cristianismo da parte do imperador Kangxi e seu filho. Esquematicamente, as questões podem ser expostas como segue: A posição que Ricci assumira em ordem a este tema pode ser relacionada ao seu profundo conhecimento da literatura chinesa, à longa experiência direta das tradições e dos costumes, ao juízo que se formara sobre a pessoa e sobre a obra de Confúcio  quanto ao ensinamento moral. A posição de Ricci sobre ambos os ritos é, portanto, muito clara: eles têm exclusivamente valor civil, enquanto estão predispostos à educação do povo e à consolidação da sociedade. Não tendo nenhum caráter religioso, não são imputáveis nem de superstição nem de idolatria. São, portanto, perfeitamente compatíveis com a fé cristã e com o culto de Deus.

Condenação

Não conhecendo tão bem o pensamento chinês e os seus clássicos, e não sendo animados pelo mesmo espírito de encontro e de comunhão, mas de um espírito mal-entendido de conquista, as ordens religiosas antagônicas à Companhia de Jesus, em particular os franciscanos, martelaram por décadas uma corte pontifícia distante e incapaz de julgar, até obterem a infeliz condenação.
O ponto de vista chinês, expresso na mensagem que o imperador Kangxi consignou ao legado Maillard de Tournon  para o papa, confirma plenamente a intuição de Ricci e seu juízo filológico e histórico, confirmado enfim pela própria Igreja romana a partir de 1934, com a revisão dos precedentes decretos de condenação, aviada pelo cardeal Fumasoni-Biondi , prefeito da Congregação De propaganda fide e depois sancionada em 1939 por Pio XII :
“Fazei solenemente saber ao Sumo Pontífice que na China nós seguimos há 2000 e mais anos a doutrina de Confúcio; por isso, desde que o padre Ricci penetrou neste império e nos 40 anos do meu reinado, isto é, de há quase 200 anos até aqui, os europeus viveram entre nós em suprema paz, sem culpa e sem erro. Se para o futuro os vossos europeus se opuserem num só ponto à doutrina de Confúcio, dificilmente permanecerão na China”.

IHU On-Line - Sob quais aspectos Ricci pode ser considerado um dos precursores da globalização?

Filippo Mignini - Parece-me que pode sê-lo sob quatro pontos de vista principais:
1. Antes de tudo, Ricci é portador de uma perspectiva universal e universalizante, própria do fundador da Companhia de Jesus, Inácio de Loyola. Este, nos Exercícios Espirituais e nas Constituições recomendará aos jesuítas lançarem sobre o mundo o mesmo olhar das pessoas da Trindade, que não consideram diferenças de raça, de cor, de língua, mas somente a diferença entre quem se salva e quem se condena. A um coirmão seu, Inácio recordava que a Companhia pratica uma “caridade universal com todas as nações” e não aprova “uma caridade particular com esta ou aquela, a menos que não seja exigida. De sua profunda formação humanística e da caridade universal de Inácio, derivou o olhar universal de Ricci sobre todo o globo e sobre a humanidade “colocada sobre a mesma terra e sob o mesmo céu”, como recorda no prefácio ao mapa-múndi de Pequim, de 1602.

2. A estes elementos de sua formação se acrescenta um traço típico de sua personalidade, reconhecido pelo próprio Ricci na carta da Índia ao padre L. Maselli, de 29 de novembro de 1586, quando escreve que a amigável acolhida recebida em todas as partes do mundo nas quais lhe acontecera estar, era considerada por ele como uma restituição da parte de Deus de “aquela particular afeição e cuidado que, estando em Roma, tinha por aqueles de diversa nação”. Também podemos atribuir a este traço característico a defesa que ele assume dos direitos dos jovens indianos discriminados em relação aos europeus no ensinamento do colégio de Goa e dos direitos dos jovens chineses com respeito às autoridades do colégio de Macau, quando de sua chegada a esta cidade.

3. Outro sinal importante de sua perspectiva globalizante foi o bidirecionamento da comunicação por ele realizado: não somente da Europa para com a China, mas também da China para com a Europa, na convicção de que uma verdadeira comunicação entre amigos devia ser recíproca e paritária.

4. Assinalo, enfim, a atividade desenvolvida por Ricci no plano da comunicação linguística. Além de ter aprendido de modo extremamente avançado, também graças à sua prodigiosa memória, a língua chinesa, aventurou-se duas vezes no empreendimento de um vocabulário chinês-europeu. Pela primeira vez, junto com Michele Ruggeri, redigiu em Zhaoquing o primeiro dicionário chinês-português, incompleto e cujo manuscrito é conservado no Arquivo histórico da Companhia de Jesus em Roma. O segundo, que remonta aos anos de 1598-99, era um dicionário sino-europeu, com a indicação dos cinco tons de pronúncia da língua chinesa, composto junto com L. Cattaneo e um coirmão chinês. Deste, até agora, não nos chegou nenhum exemplar.

IHU On-Line - No ano da comemoração do quarto centenário de sua morte, qual é a principal herança que Ricci deixa no sentido de um diálogo inter-religioso e de paz entre as nações?

Filippo Mignini - A quatrocentos anos de sua morte, Ricci nos deixa duas mensagens explícitas, que seriam necessárias valorar também hoje como um tesouro:
1. Para tornar possível a paz entre as nações, é necessário que ela seja fundada sobre o conhecimento recíproco, tornado possível pela razão, e sobre o reconhecimento da dignidade igual de todos os homens, pressuposto indispensável ao espírito de amizade.

2. A experiência realizada por Ricci ensina que um profícuo diálogo entre as religiões é possível somente se estas não se considerarem detentoras absolutas da verdade. Ele de fato se opôs aos budistas e taoístas, como também aos neoconfucianos, não conseguindo estabelecer com eles a não ser, no máximo, interessantes disputas com alguns de seus mestres. Os confucionistas ortodoxos o respeitaram e admiraram; até seus mais estreitos amigos e colaboradores tendiam a assimilar a religião cristã na própria tradição, numa espécie de doutrina sapiencial universal. Isto é o máximo que Ricci tinha conseguido obter no plano do diálogo, renunciando o quanto fosse possível, sempre na salvaguarda do essencial, a tudo o que não fosse doutrinalmente cogente.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição