Edição 347 | 18 Outubro 2010

Ricci, um precursor da globalização?

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Márcia Junges | Tradução Benno Dischinger

 

IHU On-Line - Neste sentido de inculturação e diálogo, qual tem sido a importância do conhecimento científico trazido por Ricci e por outros missionários ao Império do Meio?

Filippo Mignini - Em Pequim, embora não podendo jamais encontrar o Imperador, Ricci foi apoiado e protegido por este que, na chegada inopinada daquele estrangeiro fora do comum havia reconhecido um sinal propício para a corte. Aqui Ricci publicou obras extraordinárias em língua chinesa: de mapas-múndi de toda a Terra à tradução da Geometria de Euclides ; aqui, no decurso do ano de 1608, tendo obtido notícia de relações falsas sobre a China que circulavam na Europa, decidiu escrever a história da introdução do cristianismo e da civilização europeia no “País do Dragão”.
Se considerarmos o corpo complexivo das ciências matemáticas descrito por Clavio  nos Prolegomena à sua edição da Geometria (Roma, 1574), podemos constatar que Ricci o realizou integralmente na China, em parte sozinho e em grande parte com a colaboração de amigos chineses ou, enfim, através dos colegas europeus que viviam com ele. Tal situação do programa do “mestre” pressupunha o pleno compartilhamento do juízo sobre o valor fundador das matemáticas para qualquer outra ciência, incluindo a interpretação da Sagrada Escritura e a própria teologia revelada. De fato, a atividade científica de Ricci na China não pode ser considerada, conforme as prescrições das Constituições de Inácio, prescindindo de sua relação com a teologia e a transmissão da fé cristã. Quanto à ordem com a qual Ricci procedeu na introdução das ciências matemáticas na China, isso dependeu tanto das circunstâncias externas como, sem dúvida, das razões teóricas ilustradas por Clavio e compartilhadas pelo discípulo.

Aritmética e geometria

Livre de propor um plano de estudo das disciplinas matemáticas ao seu primeiro discípulo Qu Taisu (Shaozhou, 1589), Ricci inicia a estudar a Geometria de Euclides como fundamento ou, caso se prefira, raiz de todas as outras ciências. À tradução dos primeiros seis livros da Geometria de Euclides, correspondentes à geometria plana, Ricci e Xu Guangqi trabalham por mais de um ano, todos os dias, de três a quatro horas, neste empreendimento. A obra, limada acuradamente no estilo da Xu Gungqi, vê a luz em 1607 e foi saudada, desde o início, como contribuição tão importante oferecida por Ricci à China, que assegurou ao jesuíta a gratidão do Império do Meio.

No mesmo ano (1607), Xu Guangqi compõe também Gougu vi (Explicações do triângulo), ou seja, 15 problemas sobre os triângulos retângulos. Se considerarmos, além disso, que, em colaboração com o outro grande amigo Li Zhizao, Ricci redige Tongwen Swanzhi (Tratado de aritmética), tradução chinesa da inteira Epitome arithmeticae practicae de Clavio, publicada como póstuma em 1613, e Huangrong Jiaovi (Tratado das figuras isoperimétricas), publicada como obra póstuma em 1614, tirada também esta das obras de Clavio, podemos observar com evidência como o discípulo se esmerara em traduzir e fazer traduzir ao chinês o inteiro corpo dos escritos geométricos e aritméticos do mestre.

Ciências das medidas

Com esta fórmula entendem-se todas aquelas ciências que se propõem estabelecer medidas dos fenômenos naturais, em termos de representações espaciais e temporais, mediante a aplicação aos mesmos da aritmética e da geometria. Trata-se, talvez, da contribuição mais importante e duradoura oferecida por Ricci à China, além dos modelos cosmológicos e físicos em via de superação na própria Europa, porque fundados propriamente sobre a aplicação da matemática à indagação da natureza.

No mesmo ano de 1607, Ricci compõe uma obra intitulada Cellane Favi (Teoria e método das medidas), sempre com a colaboração de Xu Guangqi, traduzindo o livro III da Geometria prática de Clavio. A obra se refere especialmente à construção do quadrante geométrico e suas aplicações. Em apêndice ao texto expõe a regra de três, tirada do Epitome arithmeticae practicae (1585), sempre de Clavio, com muitas referências à tradução chinesa de Euclides. Após o falecimento de Ricci, Xu lhe acrescentou seis capítulos de comentário sob o título: Celiang vitong (Divergências e convergências nas medidas).
Sempre em 1607, Li Zhizao publica, com a colaboração essencial de Ricci, a tradução chinesa do tratado sobre o Astrolábio de Clavio (Roma 1593): Hungai Tongxian tushuo (Astrolábio e esfera com figuras e comentário), uma cópia do qual o autor havia enviado a Ricci na China com dedicatória autografada, agora conservada na Biblioteca Nacional de Pequim. O astrolábio constituía um instrumento fundamental para a observação do céu, para mensurar a altitude de um astro, por exemplo, o sol, ou determinar a longitude; também para calcular a latitude de um lugar, determinar a hora, seja de dia, seja de noite, mensurar as alturas sobre a terra mediante a sombra ou como instrumento de navegação. Sem este instrumento não teria sido possível construir nem a astronomia, nem a geografia como ciências.
Sabemos quanta importância tenha tido na experiência chinesa de Ricci a introdução e a construção dos relógios, tanto solares como mecânicos, fundados sobre a gnomônica, à qual Clavio havia dedicado outro tratado homônimo, além de um tratado sobre a fabricação e o uso dos relógios, com os quais se mensurava principalmente a duração do dia dividido em horas: todavia, nos exemplares mais elaborados, de tipo astronômico, também se podiam mensurar as estações e dar indicação dos sinais do zodíaco.

Outra teoria complexa de mensuração era a que Ricci desejava aplicar ao cálculo do ano, operando a reforma do calendário chinês. A falta de instrumentos de medição adequados impediu-o de levar avante o projeto, que será realizado pelos dois coirmãos alguns anos após sua morte.

Ao âmbito das ciências da medida pertence também a música, outra disciplina matemática que Ricci fez introduzir especialmente por Lazzaro Cataneo e por Diego de Pantoja . Também a perspectiva, que deriva imediatamente da Geometria, é uma ciência da medida do espaço em relação à fisiologia da percepção visual. A prática da perspectiva requereria ulteriores pesquisas referente aos interesses pictóricos de Ricci e de seus companheiros, caso se deva assumir como sua a Paisagem nos arredores de Pequim, conservada no Museu provincial de Shenyang.

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