Edição 345 | 27 Setembro 2010

''Os Sete Povos são a marca do início do RS que conhecemos''

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Graziela Wolfart

José Roberto de Oliveira defende que os Sete Povos das Missões iam muito além daquilo que chamamos hoje de Região das Missões

No próximo dia 30 de setembro, o pesquisador José Roberto de Oliveira estará na Unisinos falando sobre o tema Pedido de perdão ao triunfo da humanidade – A importância dos 160 anos das Missões Jesuíticas-Guarani. Será um pré-evento do XII Simpósio Internacional IHU - A Experiência Missioneira: território, cultura e identidade e acontecerá na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros das 17h30min às 19h. Para adiantar aspectos do tema, a IHU On-Line entrevistou José Roberto por e-mail. Nas suas respostas ele afirma que “apesar da Guerra, os índios formados nos 160 anos (das missões) não morreram, ao contrário, tornaram-se a base do ‘Povo Gaúcho’, levando a cultura e as tecnologias aprendidas a todos os cantos para formar a base do Rio Grande do Sul que hoje conhecemos”. Para ele, “a experiência agrícola dos guarani foi muito importante e constitui efetivamente um verdadeiro triunfo da humanidade”.   

José Roberto de Oliveira é engenheiro, mestrando em Desenvolvimento, pesquisador e escritor. É autor de Pedido de perdão ao triunfo da humanidade – A importância dos 160 anos das Missões Jesuítico-Guarani (Porto Alegre: Martins Livreiro, 2009). Foi vice-prefeito de São Miguel das Missões e também secretário de turismo da cidade.

Confira a entrevista.     

IHU On-Line - Quais os principais aspectos, do ponto de vista histórico, que marcam os 160 anos das Missões Jesuíticas-Guarani?

José Roberto de Oliveira – Anteriormente aos próprios 160 anos, cito a entrada dos jesuítas na América Espanhola, os primeiros contatos com os guarani e a decisão de constituir o modelo das reduções. No período dos 160 anos propriamente, destaco a fundação das reduções, desde a primeira, que foi San Ignácio Guaçu, em 1609. Depois, o conjunto das reduções onde hoje está o estado do Paraná, desconhecidas pela gente brasileira, as do estado do Mato Grosso, também desconhecidas. E, para finalizar a primeira fase, lembro o momento onde tivemos as 18 reduções do Rio Grande do Sul, período que durou até 1638.
Depois ficam 45 anos, onde hoje é Argentina, nas Províncias de Misiones e Corrientes, retornando e formando então o que, do ponto de vista brasileiro, chamamos de “Segunda Fase Missioneira” com os Sete Povos das Missões. Deste período, que em seu conjunto foram 30 povos, alcançaram o que Voltaire  chamou de “Triunfo da Humanidade” e Montesquieu  de “Primeiro Estado Industrial da América”. Importante também foi como na Europa as informações sobre os acontecimentos ocorridos em nossas terras levaram ao Tratado de Madri , à Guerra Guaranítica , à posterior expulsão dos jesuítas das Terras da América  e o encerramento do período em 1768. Apesar desta guerra, os índios formados nos 160 anos não morreram, ao contrário, tornaram-se a base do “Povo Gaúcho”, levando a cultura e as tecnologias aprendidas a todos os cantos para formar a base do Rio Grande do Sul que hoje conhecemos. Mas não valorizamos por este prisma.
 
IHU On-Line - O que caracteriza os Sete Povos das Missões? Qual é a marca desses povos?

José Roberto de Oliveira – Os Sete Povos são a marca do início do RS que conhecemos, a introdução do gado, o jeito de ser do povo gaúcho, base genética do Rio Grande. Mas também é um conjunto territorial que abarcou mais de 2/3 do atual estado do RS. Cada redução tinha suas estâncias de gado e que iam até onde hoje está Porto Alegre, Caxias do Sul, ou mesmo o Chuí ou Jaguarão. Ou seja, os Sete Povos iam muito além daquilo que chamamos hoje de Região das Missões.

IHU On-Line - Como se deu o processo jesuítico-guarani nas missões?

José Roberto de Oliveira – É sempre bom lembrar que as Missões correspondem a uma região muito grande que hoje estão na região fronteiriça do Mercosul, entre o Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. No Rio Grande do Sul que hoje conhecemos os jesuítas fundam a primeira redução, em 1626, São Nicolau, e que o povo gaúcho chama de “Primeira Querência do Rio Grande”. O povo guarani naquele momento vivia no neolítico e com a integração das duas culturas rapidamente o Barroco se fez, através da música, escultura, arquitetura e todas as artes de ofício, ou seja, um verdadeiro salto ocorreu. A experiência agrícola dos guarani foi muito importante e constitui efetivamente um verdadeiro triunfo da humanidade.

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