Edição 379 | 07 Novembro 2011

“Já temos uma filosofia brasileira”

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Márcia Junges



IHU On-Line – Quais são os maiores desafios das universidades no ensino da filosofia e no estímulo à reflexão própria, à pesquisa?

Ernildo Stein – Pelas razões acima, procura-se para a filosofia uma adaptação através da escolarização e periodização do estudo filosófico que deixa pouca escolha para os interessados desenvolverem seus interesses particulares, quando escolhem a filosofia como área específica. Com isso se pensa poder fugir um pouco dos seminários, dos tutorados e das preleções. Isso produziu transformações que podem pôr em risco a cultura científica da filosofia. É verdade que a filosofia está à procura de um ambiente, na medida em que ela quer ainda manter sua condição de ciência primeira, ou de orientação e integração. Pois dela se separaram e tornaram-se independentes tantas áreas de conhecimento, sobretudo nas ciências humanas, que ela aparentemente está à procura de novos campos em que possa exercer a função que dela se esperava. Mas essa procura parece que reside na escolha de novos critérios de avaliação da pesquisa, em novos modos de apresentação dos trabalhos em monografias custosamente compostas e que são lugar comum nos outros campos do conhecimento. Porque a filosofia exige uma continuidade que vai além de simples artigos e ensaios rápidos. Dela se espera ainda que os que estudam nesse campo produzam livros e volumes de investigação filosófica. É diante deles que se reage na filosofia acadêmica. Com isso se sustentava a relevância cultural da filosofia.

Espírito de um tempo

É claro que houve adaptação da produção filosófica à publicação de papers e resumos que possam atingir rapidamente o interesse de um espaço público mais amplo. Mas isso significa que se renuncia a todo um padrão de trabalho que implica em amplas pesquisas de bibliografia de diversas línguas, criando-se assim, com muito menos agilidade, a participação na cultura que é sustentada pela facilidade de acesso e pela brevidade de temas que possam ser absorvidos sem muito esforço. Pode-se observar que muitos filósofos se retiraram do tipo de agitação acadêmica que a opinião pública hoje espera das pesquisas. Mas os que assim desistem não podem esquecer que, em parte, a expectativa que se tem diante de uma filosofia mais ágil surge da multiplicidade de novos campos em que se espera um tipo de presença da filosofia, como, por exemplo, nas Comissões de Ética, nos debates acadêmicos amplos, na formação de adultos, no assessoramento de políticos, etc. Há, portanto, também o espírito de um tempo que tem suas razões em esperar que os filósofos encontrem novas formas de presença sem que com isso sacrifiquem o que é propriamente filosófico.

Na universidade, o desafio é bem mais amplo do que a simples procura de um ambiente na cultura onde a filosofia se desenvolva e tenha relevância. Estamos diante de duas questões que devem ser respondidas mais cuidadosamente quando examinamos a situação da filosofia hoje. De um lado, temos que responder à pergunta pela inovação na filosofia. E de outro lado, temos que seguir um caminho para que, em meio a tantas transformações, encontre-se o modo de formar cabeças filosóficas nos ambientes acadêmicos. Assim, é preciso que sejam apresentados modos que transformem a filosofia para que efetivamente seus representantes tragam mudanças que, por sua vez, estão a cargo do tipo de formação que se oferece aos estudantes de filosofia.

Isso porque, na maioria dos campos de conhecimento, a inovação e os vetores da inovação não dependem tão fortemente das individualidades como na filosofia. Talvez seja isso que represente um dos maiores desafios dos que se preocupam com o problema hoje: o desenvolvimento da filosofia está ligado de maneira íntima com o desenvolvimento do filósofo ou da formação daqueles que se dedicam à filosofia. Assim, temos pela frente as duas questões que deveriam ser respondidas para que se encontrasse uma resposta convergente. No entanto, estão levando, de modo cada vez mais generalizado, a uma divergência crescente. Os centros de pesquisa da universidade devem dar conta da formação dos interessados na filosofia através de diversas formas novas que aprofundem de fato áreas de concentração, linhas de pesquisa e formas institucionais para alcançar novos modos de os indivíduos ampliarem seus horizontes pela integração com outros campos de pesquisa e com a inserção na comunidade científica.

Leia mais...

Ernildo Stein já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Confira:

A superação da metafísica e o fim das verdades eternas. Revista IHU On-Line, nº 185, de 19-06-2006;
Depois de Hegel: “o mais original diálogo entre Filosofia analítica e dialética”. Revista IHU On-Line, nº 261, de 08-06-2008;
O abismo entre a ética da psicanálise e o discurso ético universal. Revista IHU On-Line, nº 303, de 10-08-2009;
O biologismo radical de Nietzsche não pode ser minimizado. Revista IHU On-Line, nº 328, de 10-05-2010.

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