Edição 366 | 20 Junho 2011

A supressão da Companhia de Jesus: episódio-chave de sua ação nas fronteiras da fé

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Moisés Sbardelotto



IHU On-Line – Em uma autocrítica histórica, os jesuítas foram totalmente isentos nesse processo ou também cometeram erros? Quais?

Pedro Miguel Lamet – Um personagem do meu romance, o Pe. Doreste, afirma que, na realidade, a Companhia de Jesus morreu de êxito. Ele diz assim quando se encontra com Mateo em Veneza: “A Companhia é culpada de ter êxito. Não há nada que seja mais perigoso do que o êxito. Para os outros e para si mesmo. Para os outros, porque o êxito humilha, produz inveja e competição. Para si mesmo, porque o êxito vai ligado ao poder e ao orgulho. A Companhia foi extinta na crista da onda. Quando as demais ordens religiosas e o clero estavam decrescendo em quantidade e em qualidade, a fundação de Santo Inácio vivia todo o contrário. Isso fomenta muito a autoestima, o espírito de corpo, a segurança. Creio que Voltaire disse que o que acabou conosco foi o orgulho. Talvez o momento de inflexão mais perigoso foi a entrada no confessionário real. A máxima de Santo Inácio de que ‘quanto mais universal, mais divino’ ou a ordem de educar aos que tiverem maior influência na sociedade pôde se voltar contra nós”. Embora, depois, o mesmo personagem matize: “Mas nada, Mateo, justifica o que estamos sofrendo durante os últimos anos, desterrados, exilados e agora aniquilados de forma secreta, sem a mediação do menor julgamento civil e eclesiástico, com acusações inventadas em sua maioria, com calúnias manifestas, por vingança, para defender o papa contra os regalismos, por cobiça de um tesouro mítico inventado. Enfim, tu, melhor do que ninguém, sabes o que passamos amontoados nestes barcos, vivendo mal na Córsega, peregrinando a uns Estados Pontifícios que também não nos queriam. E, o que é pior, este ponto final, fruto de intrigas, subornos e o medo de um papa frágil e angustiado. A última palavra, Mateo, nessa história, é do medo, do medo de Carlos III, incitado pelos invejosos manteistas, e o medo de Clemente XIV escolhido expressamente para nos liquidar. Seu breve suprime a Companhia sem condená-la. Como diz Choiseul, o papa, querendo ou não, evitou um cisma. Essa é a verdade, querido Mateo, ou, se preferes, minha humilde opinião. Não sei se te servirá para alguma coisa”.

IHU On-Line – Qual foi o papel da czarina Catarina , da Rússia, na manutenção da Companhia? O que é preciso ressaltar da sua figura e de suas ações nesse período?

Pedro Miguel Lamet – Curiosamente, a Companhia sobreviveu de alguma maneira graças a um príncipe e a uma princesa não católicos: um era protestante na Prússia, por algum tempo, e a outra era uma ortodoxa, a czarina Catarina da Rússia, que não quis publicar o breve papal. Isso criou um problema de consciência aos jesuítas por desobedecer ao papa. Mas, no final, conseguiu-se, pelo menos, uma aceitação verbal da Santa Sé. Catarina precisava de bons professores e pensava que manter os jesuítas poderia lhe ajudar em suas intenções de expansão ao Oriente. Mas, na realidade, foi providencial, já que essa reserva foi a célula que se manteve viva às tradições e à espiritualidade inaciana para voltar a germinar em 1814 com a restauração. No entanto, a obsessão e o ódio de Carlos III eram tão intensos que chegaram a reter em Cádiz a frota russa durante um tempo, pelo fato de que Catarina não havia aceitado a supressão.

IHU On-Line – Por outro lado, como foi esse período de “exílio” dos jesuítas na Rússia? Como era a vida da Companhia nesse país?

Pedro Miguel Lamet – Esse último broto, conservado com determinação por parte da ortodoxa Catarina II na Rússia Branca e seus dois sucessores, manteve a ordem viva em seus territórios sob a direção de cinco vigários gerais. O czar Paulo chegou a solicitar a aprovação formal da ordem a Pio VII, que, tendo-a anteriormente protegido em sua diocese, desejava restabelecê-la e criou uma comissão para isso. Já em 1792, o duque Fernando de Parma , desiludido pelos horrores da Revolução Francesa, pediu jesuítas para a Rússia, e três lhe foram enviados. O papa, apesar das cautelas e das pressões que ainda pesavam sobre ele, não pôs dificuldades e, em 1799, permitiu a abertura do noviciado de Colorno, sendo nomeado como mestre de noviços um personagem bem conhecido dos leitores do meu romance, José Pignatelli.

IHU On-Line – Qual a sua análise das decisões e dos gestos de Pio VI e de Pio VII, que restauraram a Companhia, dando-lhe nova vida? E quais eram as características da Companhia que ressurgia da supressão?

Pedro Miguel Lamet – Embora o embaixador Floridablanca tenha se empenhado a fundo para voltar a conseguir que fosse eleito outro papa ao gosto bourbônico, no final, Pio VI não cumpriu suas expectativas. No entanto, apesar do fato de que esse pontífice sentia no fundo alguma simpatia pela ordem extinta e que nunca tenha aprovado o breve do seu antecessor, estava amarrado de pés e mãos para restabelecê-la, o que só o seu sucessor poderia fazer. Em 1802, reunida a Quarta Congregação russa, foi eleito geral o padre Gabriel Gruber , vienense, professor de Arquitetura e Mecânica, que construía artefatos de ferro ou madeira assim como pintava quadros inspirados. Gruber mandou a Roma o seu assistente Cayetano Angioloni e nomeou como provincial da Itália o nosso José Pignatelli, que seria uma ponte de união entre a Companhia suprimida e restaurada, implantada já no reino das Duas Sicílias, a pedido do rei de Nápoles, seriamente arrependido de suas condescendências com Tanucci. Embora isso já ultrapasse o período que o meu romance relata, deve ter sido todo um espetáculo comprovar, ao abrir-se a casa de Nápoles, que de mais de 100 ex-jesuítas que ali estavam, já idosos e cansados com tantas decepções, só três muito doentes deixaram de se reintegrar na Companhia. E uma outra história emocionante: os antigos expulsados levaram os seus livros queridos, que lhes serviram de refúgio intelectual no exílio, para engrossar a biblioteca da casa nova. O Pe. Luengo conta que o Pe. Pignatelli fez transportar 26 caixas de livros procedentes de sua biblioteca pessoal, muitos deles raros e de grande valor. Esses padres e irmãos não ficaram muito tempo tranquilos, pois em poucos meses foram enxotados pelas tropas napoleônicas. Alguns se transladaram para fundar a Sicília. Outros, com Pignatelli à frente, foram para Roma, onde trabalharam felizmente com todas as bênçãos de Pio VII. Em 1805, o padre Gruber faleceu, tendo sido sucedido, como quinto e último geral eleito na Rússia, o polonês Tadeu Brzozowski, que veria a total ressurreição da ordem inaciana. Enquanto isso, o ambiente hostil contra os jesuítas havia mudado. Restabelecidos em Parma, Nápoles e Sardenha, e com o interesse da corte imperial de Viena por eles, só Carlos IV da Espanha continuou obstinado por algum tempo na política de seu pai e até mesmo empenhado em exterminá-los também dentro da Rússia. Não deixa de ser curioso que, mais tarde, despojado da coroa e desterrado na Itália, ele tenha agarrado a batina de Angiolini enquanto lhe dizia: “Se esta tivesse se preservado em Madri, eu não estaria em Roma”. Também desterrado em Fontainebleau, Pio VII confiava a seus íntimos seus desejos de dar logo o passo definitivo, o que faria em 1814, vencido Napoleão e de regresso a Roma, surpreendendo até seus colaboradores, entre eles o cardeal Pacca, a quem assegurou: “Podemos celebrar a restauração da Companhia de Jesus na próxima festa de Santo Inácio”. Naquele tempo, Pignatelli havia morrido em odor de santidade (beatificado por Pio XI em 21 de maio de 1933 e canonizado por Pio XII em 12 de maio de 1954), e não deixavam que o superior geral Brzozowski saísse da Rússia. Elegeram, portanto, para receber o histórico documento um idoso de 80 anos, Luis Panizzoni, como símbolo daquele broto que se conservou na Rússia, pois ali esse italiano havia entrado como noviço. O padre Luengo recordaria com grande alegria, em seu monumental diário, esse tão insigne acontecimento, que encerrava um tremendo ciclo. Às oito horas da manhã do dia 7 de agosto de 1814, às portas da Igreja del Gesù, uma centena de jesuítas idosos meio enfermos, junto com cardeais e outras personalidades, esperavam a chegada do papa, que, entre aclamações do povo romano, passou para o Quirinal. No altar de Santo Inácio, Pio VII celebrou a missa, onde foi lida a bula Sollicitudo omnium Ecclesiarum, que revogava o breve de Clemente XIV, e, respondendo a um apelo unânime, chamava de novo os “especialistas e vigorosos remadores que o Senhor lhe apresentava para vencer as ondas ameaçadoras”, 41 anos depois.

IHU On-Line – Em nível mundial, ainda há traços de antijesuitismo, dentro da Igreja ou em determinados governos (por exemplo, na própria Espanha, com o socialismo)? Qual o papel da Companhia perante esse desafio?

Pedro Miguel Lamet – Como se sabe, a Companhia sofreu outras expulsões e rejeições. Basta recordar, por exemplo, a da Segunda República espanhola, que, sob a desculpa de expulsar as “ordens com um voto de obediência a um poder estrangeiro”, desterrou de novo os jesuítas antes da Guerra Civil. Entre eles, estavam jesuítas famosos, como os padres Arrupe , Llanos  ou Díez-Alegría . A história da Companhia está cheia de conflitos. Por quê? Ultimamente, não se pode atribuir a seu poder político precisamente. Santo Inácio queria unir virtude com letras. O segredo de sua eficácia foi, de um lado, os Exercícios Espirituais, que cria homens livres e despertos, com independência de critério e ousadia apostólica. De outro, seu nível cultural e compromisso com as pessoas onde trabalha. A partir do penúltimo general, Pedro Arrupe, isso se traduziu na promoção da fé e da justiça, o que custou o martírio a Ellacuría  e seus companheiros de El Salvador, aos quais seguiram uma centena de jesuítas em diversos países. Essa é a melhor prova de que ela está viva e que hoje seus prediletos são os últimos em meio aos abismos criados pela globalização e por uma perversa ordem internacional. Essa forma de proceder também significou alguns atritos com a hierarquia. O próprio Arrupe foi um mártir incruento de sua tenacidade pela inculturação e por responder com novos moldes aos desafios do nosso tempo, que é, sobretudo, a defesa dos pobres contra os desaforos de um mundo injusto. Mas, no final, a santidade da Arrupe, de quem tive a honra de escrever uma biografia extensa e reeditada, está fora de toda a dúvida, embora não tenha sido oficialmente reconhecida pela Igreja.
Na Espanha, a situação é diferente. Eu não acho que haja agora um conflito específico com a Companhia, mas sim com toda a Igreja. Ganhou novas cores, de certo modo, um velho enfrentamento entre clericalismo e anticlericalismo, que procede, de um lado, de um involucionismo eclesial, que se defende um pouco assustado perante o fenômeno da secularização nos castelos de inverno, e de um revanchismo de uma certa esquerda contra a repressão religiosa dos 40 anos do franquismo. Mas isso já ultrapassa por completo a questão jesuíta. Hoje, o que faltam lamentavelmente são vocações sacerdotais e religiosas, e o que urge é uma inculturação no mundo dos jovens que se movem nas redes sociais e são vítimas das solicitações nem sempre boas da aldeia global. No entanto, a Companhia, com menos meios humanos, mas com a mesma ou, se cabe, com uma maior valentia apostólica, continua trabalhando dentro da Igreja nas fronteiras da fé. E todas as fronteiras, já se sabe, sempre são e serão perigosas.

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