Edição 248 | 17 Dezembro 2007

O homem que torna Deus uma realidade para nós

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IHU Online

Jesus foi um “carpinteiro, concebido por uma mulher fora do matrimônio, nascido num estábulo, é o homem que torna Deus uma realidade para nós”, afirma o teólogo Gavin D’Costa. Ele aborda questões relacionadas à compreensão teológica de Jesus homem-Deus, à forma de abordar o assunto na universidade, ao diálogo com as religiões. Para Costa, Jesus é “o homem que nos faz perceber que fomos tão desfigurados por padrões culturais habituais, que nem sequer percebemos nosso barbarismo. Ele é o homem que nos traz a verdade, a conturbadora e maravilhosa verdade de que somos plenamente amados por um Deus que tudo quer perdoar-nos, porque ele deseja restaurar-nos em nossa original bondade e beleza”.



Gavin D’Costa é um teólogo católico, nascido no Kenya, de origem hindu, que tem se dedicado ao estudo do diálogo entre as religiões. Professor de Teologia Cristã na Universidade de Bristol, da Grã-Bretanha, Gavin D’Costa é o responsável pelo departamento de estudos religiosos e teológicos de Bristol desde 1993. Na Universidade de Birmingham, esteve sob a orientação teológica de John Hick, que colabora nesta edição com a entrevista “Deus, Jesus e o pluralismo religioso”.  Após graduar-se, estudou na Universidade de Cambridge antes de ensinar em Londres e, depois, na universidade de Bristol. Escreveu duas obras que tiveram grande impacto no campo do estudo das religiões comparadas. Uma se intitula John Hick's theology of religions: a critical evaluation (Lanham/New York/London: University Press of America, 1987), e a outra Theology and religious pluralism. The challenge of other religions (Oxford/New York: Basil Blackwell, 1986). Seu livro mais recente é Theology in the public square. Church, academy and nation (Oxford: Blackwell, 2005).

IHU On-Line - Quem é Jesus Cristo? O que o senhor destacaria sobre ele a partir de sua reflexão teológica?
Gavin C. Costa -
O carpinteiro, concebido por uma mulher fora do matrimônio, nascido num estábulo, é o homem que torna Deus uma realidade para nós. Ele é o homem que, em seus ensinamentos, em seu padrão de vida, em sua morte e ressurreição, nos conduz à estilhaçante realidade de que somos assassinos cruéis que promovemos nossas ideologias e desejos egoístas a qualquer custo, especialmente quando nos defrontamos com a bondade, o perdão e o amor. Ele é o homem que nos faz perceber que fomos tão desfigurados por padrões culturais habituais, que nem sequer percebemos nosso barbarismo. Ele é o homem que nos traz a verdade, a conturbadora e maravilhosa verdade de que somos plenamente amados por um Deus que tudo quer perdoar-nos, porque ele deseja restaurar-nos em nossa original bondade e beleza. Classicamente, isso é expresso no ensinamento de que Jesus é verdadeiramente “homem” e verdadeiramente “Deus”. Mais uma coisa: ele não é simplesmente um ótimo exemplo de bondade, perdão, amante benevolência, e assim por diante. Ele é esses verdadeiros atributos tão intensamente quanto ele é Deus. Nós, cristãos – e toda a criação, começaremos a participar da vida de Deus tanto quanto participarmos destes padrões. Quando os cristãos abandonam estes padrões, eles desonram Deus de uma forma pela qual muitos não-cristãos talvez jamais o façam.

IHU On-Line - Como pode a pessoa de Jesus ser abordada, estudada, pensada nas universidades? Qual seria a função de uma teologia pública na academia? 
Gavin C. Costa -
Devemos ser cautelosos na transformação de Jesus num objeto de estudos históricos, de modo que ele se torne o único interesse de estudos histórico-textuais. Isso é o que a universidade tendeu a fazer nos últimos duzentos anos. Isso se deve parcialmente à secularização e parcialmente ao domínio do modelo historicista nas artes. Felizmente, pensadores pós-modernos questionaram essa tentativa idolátrica de seguir um único padrão de conhecimento. Infelizmente, a pós-modernidade simplesmente arrastou, em seu próprio seguimento, um relativismo e uma ulterior fragmentação da Universidade e uma perda do sentido dos objetivos da Universidade, exceto em algumas regiões ricas, em que esta promoveu uma verdadeira elite e um auto-indulgente conjunto de práticas. A pessoa ressuscitada de Jesus Cristo é atualmente, como diz Paulo, co-extensiva com o “corpo de Cristo”, a Igreja. Esta precisa um bocado de tempo para começar a dar-se conta dos desafios nisso envolvidos. Então, antes de podermos responder à questão sobre como pode “Jesus” ser pensado na universidade, nós temos que perguntar com que tipo de universidade e com que concepções de conhecimento e poder estamos lidando? Nossas universidades modernas servem usualmente à agenda do governo, que está relacionada com prosperidade econômica, armas, desenvolvimento IT, e o deus do dinheiro. Os cristãos precisam começar a levantar perturbadoras questões sobre todos esses objetivos e desmascarar as idolatrias que preenchem nossos desejos. A universidade não está isenta de idolatria.

IHU On-Line - Como pode ser justificado, em nossa época, o valor e o sentido de uma cristologia normativa?
Gavin C. Costa -
Lembrem o que eu disse sobre Jesus: ele não é apenas mais um bom exemplo de bondade, perdão, amabilidade etc. Ele encarna estes verdadeiros atributos enquanto ele é Deus. Dois aspectos ulteriores precisam ser elaborados. Em primeiro lugar, Cristo é normativo no sentido de que nós devemos ser totalmente dedicados às virtudes, já que elas são frutos do Espírito; é isso que nos conduz a Deus. Em segundo lugar, entendendo e praticando estas virtudes, só poderemos agir desta forma, engajando-nos em cada desafio que opera na história: por exemplo, outras formas de vida, incluindo as religiões mundiais, questões econômicas e sociais, ecologia, como sustentar um planeta que consiga carregar todas as culturas e classes num nível que possa ser nutritivo e criativo para todos – e assim por diante. Mas minha convicção é que nenhuma destas grandes e candentes questões pode ser devidamente entendida, nem respondida isoladamente, sem prece e participação na vida de Deus. Pois somente assim seremos capazes de nos orientar comunitariamente, dando-nos conta de quem somos e de nossa solidariedade com o mais fraco. Somente então poderemos direcionar e resolver estas questões.

IHU On-Line - O senhor sublinhou, num clássico artigo, numa obra que analisa a questão da unidade cristã reexaminada, que os cristãos deixam de ser fiéis à sua vocação cristã, quando deixam de sentir a presença da auto-revelação de Deus nas religiões mundiais. Em sua visão, isso é uma escuta que enriquece a autocompreensão cristã? Como desenvolver melhor esta questão?
Gavin C. Costa -
Eu penso que isto é muito simples. Cada encontro pode trazer-nos mais perto de Deus, já que o Espírito de Deus está presente no coração e nas estruturas de todos os povos, junto com o pecado, o orgulho, o prazer, a avareza etc. Por isso, penso que nós nos fechamos para Deus quando nos fechamos para outras religiões e culturas. Isso não quer dizer que, por eles, chegaremos a uma nova revelação. Isso é impossível, tão central como é o ensinamento sobre Jesus de que ele É a auto-revelação de Deus. Mas nós nos confrontaremos com ensinamentos e práticas que nos envergonharão de nosso pobre discipulado sob diversos aspectos e nos farão redescobrir ou aprender, pela primeira vez, a verdade que nos foi dada em Jesus Cristo. Por exemplo, quando eu via muçulmanos orando fervorosamente cinco vezes por dia, quando estive no Egito, eu me dei conta quanto eu sirvo Deus em momentos convenientes (domingos de manhã na missa etc.), em vez de permitir que todo o meu dia seja tomado por sua presença. Quando vejo certos grupos muçulmanos desenvolvendo uma economia sem usura (“riba” no Corão), eu deploro a perda desta tradição em nossa vida cristã. Quando vejo as maravilhosas práticas de jejum no Ramadã , mesmo em regiões de grande pobreza, eu igualmente me espanto por que isto desapareceu quase integralmente do cristianismo europeu em regiões onde consumimos a maior parte dos recursos da terra e a obesidade está se tornando a norma. Estes exemplos poderiam ser multiplicados muitas vezes mais. E os cristãos serão sempre chamados ao desafio por outras religiões, em suas práticas e ensinamentos, se não promoverem justiça, paz e reverência pela verdade.

IHU On-Line - De que modo o senhor reage à hipótese de pluralismo defendida por diversos teólogos contemporâneos? É possível manter a identidade cristã, quando é questionada a constituição de Jesus como salvador?
Gavin C. Costa -
Os pluralistas, como são chamados, são motivados por um impulso salvador: não pretendem denegrir outras religiões. Isto é algo bom. Eles sentem corretamente vergonha do comportamento do cristianismo neste campo. Mas eles avançam demais, com demasiada facilidade e de modo realmente desnecessário. Eles pensam que, se proclamamos que Jesus é a verdade, o caminho, a vida, devemos necessariamente ser negativos em relação a outras religiões, tanto em termos de suas estruturas, crenças e práticas, como também em termos de salvação para os não-cristãos. Estas coisas negativas simplesmente não decorrem, teológica ou historicamente, da proclamação do cristianismo sobre Jesus – embora, lastimavelmente, elas às vezes aconteçam. A Igreja Católica não vê de modo ambíguo essas coisas negativas, que não são corolário de sua positiva proclamação sobre Jesus. Os pluralistas, infelizmente, acabam “jogando fora o bebê com a água do banho”. Eu encontrei, por exemplo, muçulmanos chocados com cristãos pluralistas, estranhando aquilo em que crêem e porque abandonaram a fé de seus progenitores. Respeito não significa consentimento!

IHU On-Line - Quais seriam as mudanças que o senhor apontaria como indispensáveis nas igrejas cristãs para viverem o cristianismo neste século?
Gavin C. Costa -
Três coisas. Primeiro, criar pequenas comunidades onde as pessoas realmente comecem a conhecer-se mutuamente e cuidar uns dos outros. Isso acontece em liturgias em que as alegrias, preocupações e complexidades de nossas vidas são sinceramente trazidas ao altar, onde comungamos da mesma taça. Nossas igrejas devem ser comunidades nas quais brilhe o amor de Deus, por serem nutridas por este amor na liturgia. Segundo: culto religioso e política são inseparáveis. Isso sempre traz problemas, mas, se procurarmos viver uma vida virtuosa, nossas vidas serão inevitavelmente políticas. Na Europa, as comunidades cristãs devem viver com simplicidade, sem afluência ou consumismo, em real solidariedade com os fracos e vulneráveis, e sempre desafiando o militarismo. Essa igreja é política por sua própria existência. As igrejas no Brasil devem explorar sua própria vocação, mas na Europa a missão é agora central, já que a vida cristã está desaparecendo rapidamente. Terceiro: não se desesperem. A vida está repleta de complexidade e sofrimento, de diferentes maneiras para diferentes povos. A vida cristã deve novamente refletir uma alternativa: que uma só coisa é importante e nada, seja lá o que for, pode extingui-la. A fé é um dom sobrenatural e é o tema central da nova encíclica do Papa Bento XVI. A primeira foi sobre o amor. Ele sabe com muita clareza o que é importante e central para a fé!

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