Edição 243 | 12 Novembro 2007

História em quadrinhos: a produção do pensamento livre

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IHU Online

“No Brasil, o quadrinho underground como forma perdeu sua força para o que chamamos de quadrinhos independentes”, comentou o quadrinista Francisco Marcatti Jr., em entrevista à IHU On-Line, por e-mail. Segundo ele, os quadrinhos independentes são muito mais importantes para os artistas brasileiros, que apresentam uma postura criativa e “impõem seu livre pensamento”. “Quando se trabalha com essa liberdade, os quadrinhos passar a ser um retrato – com filtro ou não – da sociedade em que se insere e da qual se origina”, esclarece. Para que esses trabalhos ganhem mais destaque e visibilidade no futuro, Marcatti diz que é necessário que os quadrinhos deixem de “ser marginalizados como linguagem”. Otimista, ele sonha que os livros de quadrinhos autorais levarão “os seus eternos leitores a se aproximarem da literatura clássica”.

Marcatti publicou sua primeira história em quadrinhos aos 15 anos, e desde então não parou mais. Hoje, está entre os mais importantes autores de quadrinhos underground do Brasil. Entre suas publicações, citamos as mais recentes: A mariposa, de 2005, Creme de Milho 3D, de 2006, e A relíquia, publicada em maio de 2007. Eis a entrevista:

IHU On-Line - Como você define o processo da passagem de uma obra literária que foi o caso de A relíquia para os quadrinhos? Quais são os principais desafios para preservar o conteúdo da obra e manter o seu estilo e seu traço?
Francisco Marcatti Jr. -
A relíquia é uma adaptação livre da obra de Eça de Queiroz . De início, livrei-me de qualquer senso de obrigatoriedade em ser fiel. Sem essas “amarras”, o processo foi, apesar de trabalhoso, muito divertido. A contundência e a riqueza da obra original exerceram tamanha força na adaptação, que acabou por resultar-se fiel. Não foi intencional. O desafio maior foi na “mecânica”. Esta obra clássica de Eça de Queiroz é constituída de longos trechos sem cenas e ações como é o caso dos quadrinhos. A solução que encontrei foi “roubar” a história original e manipulá-la como se fosse minha. Apoderei-me do conteúdo original e o tratei como argumento básico. A grosso modo, resumi o livro todo a um mísero parágrafo, uma simples resenha para esticá-la somente de memória na hora de roteirizar. Só então, com esse roteiro pronto, é que voltei a reler o original para resgatar ou não possíveis detalhes importantes que eu pudesse ter deixado passar. Em resumo, foi extremamente prazeroso fazer essa adaptação, uma mistura entre total liberdade e de grande admiração pelo trabalho de Eça de Queiroz.

IHU On-Line - Quais são as características do quadrinho underground brasileiro?
Francisco Marcatti Jr. -
No Brasil, o quadrinho underground  como forma perdeu sua força para o que chamamos de quadrinho independente. O underground americano pouca influência exerceu nas gerações posteriores à minha. Mesmo o meu trabalho, que ainda guarda fortes influências dos comix, já não é tão fiel às suas origens. O quadrinho independente, por sua vez, é muito mais importante para nós brasileiros. De sua origem como forma de sobrevivência diante da falta de espaço no mercado editorial, hoje tem sido muito mais uma postura criativa, em que o autor impõe seu livre pensamento. Os erroneamente chamados fanzines nada mais são do que exercícios fundamentais no amadurecimento dos seus autores. Esse desprendimento acaba criando raízes, e quadrinista se torna “autor”.

IHU On-Line – O senhor diz que a espinha dorsal do seu pensamento está constituído na obra de Henry Miller, e que também teve influências de Hermann Hesse. Que aspectos apresentados por esses autores, estão presentes na sua obra?
Francisco Marcatti Jr. –
A influência de Hesse é seu brilhante uso de imagens simples e quase inocentes para dar corpo a idéias profundas ou complexas. Todos os seus elementos, personagens ou tramas aparentam-se pueris ou singelas. Em alguns casos, como em Knulp, Hesse vai pouco a pouco agregando e desvendando um universo denso e envolvente. Outras vezes, ele parte de elementos superficiais, pega o que seriam nuances e carrega nas tintas. As tais nuances passam de detalhes para elementos chave de todo um conceito. Quando falo que Henry Miller é a espinha dorsal de meu trabalho, refiro-me à sua forma de narrar cada cena, destrinchando seus detalhes, futucando e esmiuçando com olhar microscópico cada fresta e cada pelo ou pó. Com esse detalhamento, Miller constrói suas imagens hiper reais, com cheiros, cores e sabores que podem nos causar repulsa, surpresa, raiva etc. Mas ele faz isso de dois modos fundamentais: apaixonadamente e com respeito. Ele não atribui valores ou adjetivos às suas cenas, aos seus personagens. Descreve um mundo sujo, fétido sem chamá-lo de sujo e fétido. Respeita cada elemento desse universo podre permitindo-lhes, como autor, serem e estarem em paz com seu meio. Nós, leitores, sentimos o fedor daquilo que Miller chama de aroma, perfume.

IHU On-Line - Em que sentido os quadrinhos podem se tornar uma ferramenta de debate social? No seu caso, trabalhando com quadrinhos há cerca de 30 anos, como foi a produção alternativa na época da ditadura?
Francisco Marcatti Jr. -
Para mim, é premissa trabalhar de forma independente. Isso inclui a linha de raciocínio criativo. Quando se trabalha com essa liberdade, os quadrinhos passam a ser um retrato - com filtro ou não - da sociedade em que se insere e da qual se origina. Não gosto de pensar nisso como um fardo, mas com certeza as histórias em quadrinhos são tão importantes como registro quanto como ferramenta de debate. No sentido mais estrito do termo, minhas histórias em quadrinhos são pouco ou quase nada políticas. Apesar disso, vivi alguns apuros no período da dita cuja. É bem verdade que meu início coincide com a época menos obscura dessa mancha na nossa história. Geisel e Figueiredo foram “progressistas” perto de seus antecessores.

IHU On-Line - Você acha que existe algum preconceito intelectual em relação aos quadrinhos? Como vê essa questão? O escritor de quadrinhos é um profissional valorizado no meio literário?
Francisco Marcatti Jr. -
Existe sim, mas é bem menos intenso do que poucos anos atrás. Um dos fatores para que esse preconceito se desenvolvesse e se consolidasse por várias gerações é o próprio mercado editorial, que sempre tratou as histórias em quadrinhos como produto de consumo. Na medida em que, nos anos 1960, os quadrinhos europeus ganharam estudos sobre sua importância, o mundo viu disseminar a produção do quadrinho autoral. Quem tem preconceito com relação aos quadrinhos, na verdade é vítima de um mercado que ainda trata história em quadrinhos como gibi (nome herdado de publicação semanal e descartável de histórias em quadrinhos no pós-Segunda Guerra). Mas essas mesmas pessoas, em qualquer setor da sociedade, quando tomam contato com quadrinho autoral, percebem que ali há uma qualidade que ele desconhecia. Podem acabar por detestar meu trabalho, julgando-o asqueroso ou forte demais, mas já não se sente confortável em dizer que não gosta de quadrinhos como um todo. A generalização já não faz mais tanto sentido. Tem soado estranho se dizer que não gosta de histórias em quadrinhos tanto quanto é absurdo alguém afirmar que não gosta de filmes de cinema. Pode-se detestar filmes de ação, outros desprezam o gênero de terror, e alguns abominam comédias românticas. Mas é raro alguém dizer que não gosta de cinema.

IHU On-Line - Como você vê o futuro do mercado de quadrinhos no Brasil?
Francisco Marcatti Jr. -
Basta caírem essas últimas barreiras que colocam os quadrinhos como um mundo à parte, quase uma sociedade secreta, e eles deixarão de ser marginalizados como linguagem. Aí, então, nossas preocupações serão as mesmas de todo o mercado literário.Penso até que, talvez por excesso de otimismo, que os livros de quadrinhos autorais, tratados como uma outra forma literária, levarão os seus eternos leitores a se aproximarem da literatura clássica.

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