Edição 238 | 01 Outubro 2007

Perfil Popular - Geraldo Pereira de Oliveira

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IHU Online

Há 19 anos, a cidade de Canoas, no Rio Grande do Sul, é a casa do mineiro Geraldo Pereira de Oliveira. Sua vida foi privada de luxos. O trabalho, que conheceu precocemente, lhe tirou o direito de ser criança, porque, aos oito anos de idade, Geraldo foi para a roça trabalhar com os pais. Foi com o ofício de pedreiro que ele construiu a sua vida: casou e criou três filhos, para os quais pode dar as condições de estudo que ele gostaria de ter tido e não teve. Em entrevista à revista IHU On-Line, Geraldo revelou passos importantes que deu para conseguir superar os obstáculos do seu caminho e vencer na vida. Entre eles, está o alcoolismo, que obscureceu sua trajetória por um bom tempo. Ao relatar sua história, em uma folguinha durante o trabalho, Geraldo se deixou levar pela emoção. Vaidoso, trocou de roupa para ser fotografado para a editoria Perfil Popular desta semana. Confira a entrevista:

Origens – Nascido no distrito de Peçanha, no interior de Minas Gerais, Geraldo, 68 anos, é o mais velho de oito irmãos. A criação foi marcada pela simplicidade, e, sem se envergonhar, ele relembra seus momentos difíceis. “Nós éramos da colônia. Fomos criados na roça, onde meus pais trabalhavam. Minha casa era pequena: quatro peças cobertas com taquara. Depois, é que o ‘velho’ fez uma casa boa, de telhas. Mas na que a gente foi criado só não chovia dentro.” Geraldo conta que a relação com os irmãos e com a mãe “era a coisa mais legal que podia existir”. A mãe de Geraldo era asmática, e faleceu nova, com 52 anos. Seu pai se aposentou trabalhando na roça e morreu aos 87 anos de idade.

Escola e infância – Precária. É assim que Geraldo define a sua infância. Ele enfatiza que, por conta do trabalho, a dedicação aos estudos era pouca. “Estudei até a 3ª série e, com oito anos, fui trabalhar na roça.”

Trabalho - Aos 23 anos, Geraldo saiu do interior e foi morar na cidade, onde trabalhou no comércio. “Do comércio, voltei para a roça. Daí, não deu e fui para a cidade de novo. Trabalhei na roça e morei em Minas Gerais até os 25 anos. Depois, fui para o Rio de Janeiro trabalhar em uma construtora.” Lá, Geraldo fazia túneis para tubulações de água. Durante 32 anos, foi barbeiro. “Fiquei no Rio de Janeiro por seis anos. Voltei a morar no interior de Minas Gerais, e trabalhava na cidade. Eu fazia tijolos maciços. Fui fazer os tijolos para a construção de uma escola, e apareceu um pedreiro lá para fazer. Ele me convidou para queimar os tijolos para que eu aprendesse a trabalhar de pedreiro. Eu já era casado, tinha uns trinta e poucos anos. Comprei uma colher de pedreiro, um prumo, um esquadro e fui para a obra. E não parei mais. Já faz 22 anos que trabalho nisso.”

Casamento – “Era o meu sonho ter a minha família”, revela Geraldo. Com 29 anos de idade, ele casou com Edite. A união já dura 37 anos. “Quando eu a conheci, ela trabalhava em casa de família. Éramos de municípios diferentes. Ela era de São Geraldo (MG), e eu de Água Branca, no mesmo Estado. Namorei cinco anos, depois casei.” Do casamento, nasceram três filhos: Ediraldo, Eliane e Eloísa. Geraldo afirma que não há o que reclamar da vida de casado, e o período difícil que enfrentou foi provocado por ele mesmo. “Vivi um tempão no alcoolismo, o que estragou a minha vida.”

Alcoolismo – “Bebi onze anos sem parar”, conta Geraldo. Cansado do sofrimento, em 1978 ele entrou para o grupo dos Alcoólicos Anônimos. E, orgulhoso, revela o resultado do seu esforço. “Estou há 29 anos e uns meses sem beber e sem fumar.” Embora seja negativa, a experiência ensinou muito a Geraldo. “Aprendi a amar mais aos outros, inclusive minha família e as amizades, que, para mim, estão acima do dinheiro. Eu amadureci mais na vida, porque a gente pára de beber e vai recuperar as coisas perdidas, inclusive a saúde.”

Libertação - Após anos de tratamento, Geraldo reconhece que abandonar o vício foi a sua maior vitória. “Quando eu me livrei do alcoolismo, senti que tudo clareou. Parece que eu estava em trevas e saí. Eu aprendi a viver e a deixar os outros viverem.” Ele explica que o tratamento é para toda a vida, e consiste em participar das reuniões, além de ajudar as pessoas. “É uma coisa que a gente ganha de graça e distribui de graça. Fui ajudado e não paguei nada, e, hoje, tenho a maior alegria de poder ajudar os outros.”

Filhos – Quando tinha 30 anos de idade, Geraldo descobriu o sentido da paternidade, com o nascimento de Ediraldo. Três anos mais tarde, nasceu sua primeira filha, a Eliane. Um ano depois, nasceu Eloísa, a filha caçula. “A coisa que eu mais queria era ser pai, só que por certo tempo, no período do alcoolismo, minha vida de pai foi muito frágil. Deus me ajudou a me libertar do alcoolismo e eu pude acabar de criar os meus filhos. Pelo menos dar a educação escolar, que eu tive muito pouca.” Quase todos os filhos de Geraldo têm curso superior. Ediraldo, 36 anos, é técnico em Agropecuária, possui graduação em Sociologia pela Unisinos, e, recentemente, formou-se Técnico em Contabilidade. Eloísa é professora, mas ainda não se formou.

Filha religiosa
“Eliane é formada em Farmácia e é Irmã , na África. Ela está lá há sete anos, e vem para casa de três em três anos.” A decisão da filha causou estranheza em Geraldo e na esposa. “Para a gente, foi diferente, porque os filhos foram criados todos junto com a gente, mas entendemos que esta era a vocação dela, que gosta muito de lidar com as pessoas doentes e pobres.”

Grude
Um dos maiores presentes que Eloísa deu ao pai foi Isabel, 2 anos, única neta de Geraldo, até agora. “Eloísa tinha muita vontade de casar. Ela casou e, depois de um ano, nasceu a menina, que é uma alegria para mim. Isabel é mais apegada a mim do que com a mãe e a avó dela. É um grude, como dizem. Sou eu quem leva ela para a creche, antes de ir trabalhar.” Por cinco meses, Geraldo ficou longe da neta, devido a uma oportunidade de emprego para o seu genro, no Paraná. “Esta mudança me torturou. Agora, eles voltaram a morar com a gente, e, para mim, foi bom demais. Sempre que os filhos vierem serão bem-vindos. A casa da gente é dos filhos da gente. É a mesma coisa com Deus. A gente peca e Ele recebe a gente do mesmo jeito.”

Saudade – A saudade da filha Eliane, missionária na África, é superada através de conversas pelo telefone. “Se eu tivesse condições, eu ia para lá, até para conhecer a África, que conheço só pela televisão. Minha filha conta que lá é muito sofrido e ainda tem bombas na terra, dos tempos da guerra. Há bombas e pedras preciosas.” Geraldo explica que a rotina de Eliane se divide entre dar aulas de religião, levar a comunhão para os doentes, além de cuidar das crianças desnutridas. Orgulhoso, o pai revela a felicidade que sente pelo trabalho que a filha desenvolve. “Eu admiro o gosto dela. Eliane puxou a mim neste sentido, porque não posso ajudar as pessoas materialmente, mas, fisicamente, e qualquer ajuda para as pessoas que precisam, eu gosto de dar.”

O sentido da profissão - “Criei meus filhos trabalhando de pedreiro. O que tem dado sustento para mim é o serviço, porque sempre tem.” Embora receba o benefício de um salário mínimo do Governo, pela idade, Geraldo ainda trabalha para complementar a renda. “Dizem que quem tem idade não precisa trabalhar mais, mas eu não vou por aí. Eu não posso é roubar, mas trabalhar, eu posso.” Para Geraldo, o trabalho faz a gente viver mais. “Enquanto eu agüentar, eu trabalho.”

Rio Grande do Sul – “Decidi vir pra cá, porque a minha cunhada morava aqui e trouxe a minha filha Eloísa para cuidar dos meninos dela.” Geraldo conta que sempre tinha muita vontade de mudar da sua cidade, que não oferecia oportunidade de emprego aos seus filhos. “Moro em Canoas desde 1988, no bairro São Vicente. Comprei um terreno e construí a minha própria casa.” Com a mudança, Geraldo sentiu muita diferença. Algumas ainda não foram superadas. “Até hoje não me acostumei com o clima. Lá em Minas é mais quente.” Em pouco tempo morando em Canoas, através da Igreja, novas amizades foram construídas. “A gente foi recebido, primeiramente, pelos católicos, e, depois, se expandiu a amizade com todos, porque a gente não pode ter distinção de cor, raça, ou religião. Todo mundo vale. Rapidamente, nos adaptamos com o pessoal. Pretendo terminar meus anos de vida por aqui.”

Volta aos estudos – Há dois anos, para dar ânimo ao seu genro, que só tem a 2ª série, Geraldo voltou a estudar. Passou a freqüentar aulas à noite, no Colégio Planalto Canoense, no bairro em que mora. “Fiz teste de leitura e de matemática. Passei e entrei na 4ª série.” Geraldo só parou de freqüentar a escola porque cochilava demais nas aulas, mas ressalta que gosta muito de estudar. “O saber não ocupa lugar. Vocação, você tem só uma, mas profissão você pode ter várias. Eu tive tanta profissão e escolhi ser pedreiro.”

Religião – “A gente nasceu na roça e a nossa Igreja ficava a 18km. A gente fez catequese na escola e ia à missa todos os domingos”, conta Geraldo sobre o seu envolvimento com a Igreja Católica. Hoje, ele faz parte da Pastoral da Oração e é Ministro da Comunhão, distribuindo a comunhão na hora da missa e para os doentes, junto com o padre. “Sou Ministro há quase oito anos. Gosto muito deste trabalho, que é sério e de respeito, além de muito gratificante. Só deixo este trabalho, quando o Padre falar para mim que não dá mais, porque, a partir de dez anos, entram novos Ministros.” O maior ganho de Geraldo com este trabalho foi a humildade. “Todo o mundo tem raiva, mas não se pode guardar rancor, que é ruim para a saúde. Aprendi a conhecer as pessoas que me cercam a minha família e os meus amigos, e a ver para quem eu posso dar a comunhão, quem necessita realmente dela.” Para Geraldo, desde cedo é preciso ensinar as crianças não só na escola, mas também na fé. “Eu estou passando para a minha netinha todos os ensinamentos da Igreja.”

Fé – É o dito “a fé remove montanhas” que faz Geraldo acreditar cada vez mais em Deus. “Á fé com Deus está em primeiro lugar, e sempre tem que ser viva. Com a fé, a gente larga as coisas que prejudicam e pegar apenas as cabíveis. Agradeço muito a Deus pela vida, pela família que eu tenho, pelos meus amigos, e por eu agüentar trabalhar ainda.”

Educação – “Eduquei meus filhos do modo que pude. E, graças a Deus, eles nunca me deram trabalho. Sempre gostaram de trabalhar e estudar”, comenta o pai, orgulhoso. Por conta disto, sempre que encontra pessoas que gostam de estudar e trabalhar, Geraldo reza para que estas pessoas sejam muito felizes, “porque isto é a coisa mais gratificante do mundo. Não se aprende bobagem. Se todo mundo pensasse assim, não tinha nada de ruim no mundo, eram só bons pensamentos e ocupação. A pessoa que está sempre ocupada tem a cabeça no lugar”, ressalta.

Lazer – Mesmo quando não está trabalhando em alguma obra, Geraldo não pára. “Não tenho muita folga. Se tenho, aproveito para arrumar alguma coisa em casa: mexer com luz ou arrumar uma fechadura. Sempre tem uma coisinha para fazer. Também gosto muito de dormir.”

Política brasileira – “É muito suja, e a segurança é muito precária”, afirma Geraldo a respeito do quadro político do país. Com indignação, ele complementa: “Tenho nojo da política corrupta. Acho que o político tem que ser mais honesto, porque, se ele não for honesto, ele não faz nada, ele não dá bom exemplo para os outros, não ajuda em nada.” Geraldo acredita que a solução para a política está, em parte no governo, mas também no povo, “porque o povo tem muita força para eleger e pode tirar do poder. Onde existe muita força é maior reforço contra as coisas ruins”, avalia.

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