Edição 237 | 24 Setembro 2007

Filme da semana: Santiago

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

IHU Online

O filme comentado nessa edição foi visto por algum (a) colega do IHU e está em exibição nos cinemas de Porto Alegre.

Nome: Santiago
Nome original: Santiago
Cor filmagem: Colorida
Origem: Brasil
Ano produção: 2007
Gênero: Documentário
Classificação: livre
Direção: João Moreira Salles 

Sinopse:
Em 1993, João Moreira Salles tentou fazer um documentário sobre o antigo mordomo de sua família, o argentino Santiago Badariotti Merlo. Abandonou por 13 anos o projeto, concluindo-o somente em 2006. O trabalho discute não só a figura de Santiago, mas a do próprio cineasta, suas memórias e identidade.


O jornal Folha de S. Paulo, em 24-08-2007, publicou o seguinte comentário do crítico de cinema Inácio de Araújo, sob o título “Salles usa mordomo como espelho e faz um ótimo filme sobre si mesmo”.

Em Santiago existe um filme e, sobre ele, um outro filme. O primeiro diz respeito ao antigo mordomo da família Moreira Salles e foi feito em 1992 por João Moreira Salles.

Havia razão para o interesse por Santiago: de sua paixão pela aristocracia ao trabalho de copista, trata-se de um homem singular. No entanto, Salles não conseguiu dar forma à série de pensamentos e afetos comunicados pelo ex-empregado de sua família. Havia ali um passado que falava muito ao autor do filme, mas ao que parece não existia maneira de transformá-lo em um objeto estético, de montá-lo.

É apenas em 2007 que o filme fica pronto. Já não é mais - ou já não é apenas - um filme sobre Santiago, o mordomo, mas um extenso questionamento sobre o próprio autor e as razões que o levaram a filmar os locais que filmou e a pessoa que filmou, já que Santiago evoca a casa onde Salles passou sua infância e adolescência.

O que mais se comenta, o que mais o próprio cineasta enfatiza a respeito deste filme é a “luta de classes” implícita no ato de alguém tomar como personagem seu próprio mordomo.
Não há razão para tanto, mas em quase todo o filme, em preto-e-branco, Santiago aparece cercado por maçanetas, portas, objetos diversos. O enquadramento o oprime, assim como patrões podem oprimir a seus empregados. Mas não há luta de classes. Santiago é uma espécie de agregado da família.

Santiago é também uma espécie de memória auxiliar da família Moreira Salles, e é nessa medida que mais interessa a João. É como se este, partindo em busca do tempo perdido, precisasse de um apoio, do apoio desse memorioso capaz de não só lembrar das coisas, como de mitificá-las (a mansão de Walter Moreira Salles é, para ele, o duplo de um palácio florentino). Mas a memória pertence ao cineasta, a João.


Tempo para amadurecer

Não sendo um filme sobre Santiago, o mordomo, resta intacta a questão: por que tanto tempo para conseguir montá-lo? Algo se passou. A morte de Santiago, entre elas. Foi também o tempo de amadurecer a autocrítica, de admitir que, afinal, João Moreira Salles fazia um filme sobre si mesmo. E que se tratava de recuperar o seu passado, e não o de Santiago, que vive num passado de que é despojado. Tanto que, no único momento em que Santiago se dispõe a dizer algo de realmente pessoal, o cineasta deixa a câmera desligada: não era Santiago, nem a estirpe de “malditos” a que diz pertencer que importam. O mordomo, afinal um agregado, era só o espelho.

Um filme tão íntimo, em que o documentarista busca a si próprio através de outro, por que deveria nos interessar? Em primeiro lugar, porque qualquer um de nós busca, também, o seu passado nos objetos, nas pessoas, espaços e construções que freqüentou. Em segundo lugar, porque é uma natureza do cinema que Salles nos dá a ver: a da montagem. Se a operação de filmar é um impulso, a segunda, de montagem, consiste em dar forma, ao articular as imagens. Articular a quê? Essa a questão que embatucou o documentarista por quase 15 anos. Que operação é essa? É a de entendimento, de articulação entre as imagens captadas e o passado a que se procura dar forma. Materializar o passado é a proeza que Santiago consegue executar


José de Souza Martins, professor de sociologia da Faculdade de Filosofia da USP, sob o título “O mordomo conta muito”, publicou o seguinte artigo no jornal Valor, no dia 21-09-2007:

Mais do que o mordomo que evoca momentos dos 30 anos em que serviu na casa da Gávea, da família Moreira Salles, Santiago é personagem dos bastidores de esplendor de uma época terminal da história da sociedade brasileira. Com mais de 80 anos, evocou para a câmera de João Moreira Salles lembranças de uma vida que não foi sua, como é próprio daqueles cuja biografia se desenrola na coadjuvância do servir. Vivia para os outros, para a família do “senhor embaixador”, como chama o banqueiro Walther Moreira Salles, que foi embaixador em Washington por duas vezes e ministro do regime parlamentarista no governo João Goulart. João Moreira Salles, em Santiago, fez um documentário sobre a épica da subjetividade no âmbito propriamente fictício de uma história pessoal, a dimensão imaginária sem a qual o viver se torna impossível.

Há situações sociais e algumas profissões em que o imaginário rege mais forte as relações sociais do que em outras. São aquelas de papéis e funções sociais precisos, quase teatrais, ou aquelas em que há momentos que devem ser socialmente teatrais. Nessas situações, quando o ator é ruim, o conjunto do desempenho é arruinado, a própria instituição em que se dá sai empobrecida na diminuição do seu simbolismo. Pessoas de diferentes condições sociais têm seu próprio aparato ficcional de referência, muito mais relativo ao que acham que a sociedade é do que àquilo que a sociedade efetivamente é.

Essas pessoas se revelam nesses acertos e deslizes, nesses encontros e desencontros entre o liturgicamente prescrito e o socialmente desempenhado. São esses encontros e desencontros que nos falam sobre a qualidade da socialização e da educação que aquela pessoa recebeu, sobre a qualidade do ajustamento de cada um e de todos às necessidades sociais e às funções sociais a que são chamadas a desempenhar. A sociedade não é um caos de improvisações. Ela é sobretudo a ordem dos desempenhos prescritos e das improvisações referidas a essa ordem subjacente na conduta de todos. Há improvisações desastrosas que transformam o drama em comédia, o sério em cômico. E, no extremo, há improvisações e repentes com estilo, arte e consciência, dos atores competentes, dos que expressam melhor do que ninguém o que uma sociedade é, dos que conservam e inovam ao mesmo tempo. Assim como há situações sociais documentais, as que melhor revelam o que uma sociedade é, há também pessoas documentais, aquelas cujo modo de ser, de pensar e de agir melhor documentam o que a sociedade é num determinado momento histórico, tanto por aquilo que tais pessoas têm e a sociedade parece não ter, quanto por aquilo que a sociedade nelas tem como manifestação-limite do que é.

Santiago é uma refinada expressão dessa última situação. Certa noite, os patrões saíram para um compromisso social e autorizaram o mordomo a fechar as portas, apagar as luzes e recolher-se. Num certo momento, João Salles, ainda menino, ouviu música num salão da casa. Saiu de seu quarto e foi ver o que acontecia. Santiago, vestido com o fraque de servir nas grandes ocasiões, tocava piano. Surpreso, quis saber por que, naquela hora, estava vestido daquele jeito: “Porque é Beethoven, meu filho”.

É nesse sentido que a decisão de João Moreira Salles, de contar a história do mordomo de sua família, foi criativa e inspirada. Ele reconheceu, em primeiro plano, o rico e sofisticado imaginário do mordomo de sua casa, que o viu, e a seus irmãos, transformar-se de crianças em adultos. O filme é um documentário, mas o mundo de Santiago é um mundo de ficção. Ele imagina a casa dos Moreira Salles como o Palácio Pitti, de Florença, e os atende com a deferência de um sofisticado servo palaciano do Renascimento, o que se expressava nos seus arranjos florais.

O mundo dos mordomos tem sido objeto de verdadeiras obras de arte do cinema, como esta de João Salles. É inevitável lembrar-se de Steve, em Vestígios do dia, com a diferença enorme de que Steve não tinha a consciência histórica de Santiago. Steve é, literalmente, um prisioneiro da história, enquanto Santiago, mais do que prisioneiro, é um pesquisador e cronista da história das casas senhoriais de todo o mundo, da genealogia das pessoas gradas de todas as partes. No plano oposto, é inevitável lembrar do mordomo em The servant" (O criado), de Robin Maugham, que era sobrinho do escritor Somerset Maugham. Robin baseou-se na experiência real de sua vida, quando estudante na Universidade de Cambridge e membro de Trinity Hall. Um caso dramático em que seu mordomo, no College, resolve explorar sua dependência pessoal para dominar sua casa e dominá-lo, privando-o da deferência do tratamento assimétrico, destituindo-o, em conseqüência, da expressão litúrgica de sua condição de membro da nobreza.

Depois de alguns anos de indecisão quanto a fazer a narrativa fílmica do imaginário de Santiago, João Salles conseguiu, finalmente, dar forma e conclusão ao filme. Fez um documentário primoroso, não só pela extraordinária história do mordomo, argentino descendente de italianos do Piemonte, poliglota, homem culto, mas também porque deixou à mostra os andaimes de sua obra. Santiago, como João, na realização do filme, não consegue libertar-se da trama de regras de relacionamento social desnivelado, entre quem manda e quem obedece. É João Salles quem se dá conta dessa assimetria persistente.

No entanto, Santiago é o sutil senhor das notas de rodapé do filme. Num momento, ao descrever sua rotina, diz com um sorriso levemente malicioso que era um verdadeiro escravo, mas não consegue esconder seu orgulho profissional de servir. Em dois ou três momentos, observa que as personagens de sua narrativa e de suas lembranças estão todas mortas. Desse modo, propõe-se não só como sobrevivente de uma história da vida privada. Propõe-se também como mordomo da própria história, aquele que nas casas senhoriais apagava as velas e, em silêncio, fechava as portas, cuidadosamente, antes de recolher-se.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição