Edição 230 | 06 Agosto 2007

Sérgio Dapper

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Foi através das diferenças que Sérgio Dapper, advogado e funcionário do Setor de Suprimentos, trabalhando na área de Gestão de Serviços de Impressão e Reprografia da Unisinos, descobriu-se um vencedor e, mais do que isso, um exemplo de pai. Seu filho caçula, Eduardo, é portador da Síndrome de Marfan, a qual compromete a locomoção e a coordenação motora. O filho é para Sérgio uma razão a mais para viver. Confira, a seguir, em entrevista exclusiva à revista IHU On-Line, a história de vida deste pai que acredita nos seus sonhos e tem a esperança de ver um Brasil melhor.

 

Origens e infância - Nasci em São Pedro da Serra, então município de Montenegro, onde me criei até os 20 anos. Minha família é constituída de nove membros: meu pai, já falecido, minha mãe e sete filhos. Minha mãe era dona-de-casa e meu pai, agricultor. Não tínhamos recursos, mas éramos todos muito unidos e solidários. Tínhamos o que comer e o que vestir. O restante íamos levando com a luta diária. Quando criança, não havia os recursos que se têm hoje, mas tinha tudo o que, naquele momento, eu julgava interessante para ser criança e gostar da minha infância. Datas como Natal e Páscoa, as olimpíadas escolares, as missas que organizava, como integrante de um grupo de jovens, e os jogos de futebol, me marcaram muito.

Vida escolar e ingresso na Universidade - Minha vida escolar foi muito boa. Lembro do primeiro livro que ganhei e tive que ler. Intitulava-se Páginas do sul. Acho que foi na 1ª série, quando estudei no Colégio de freiras Imaculado Coração de Maria. Sempre gostei muito de estudar. Gostava de ir à aula pela manhã, mesmo com o frio. Sou o único da família que tem formação superior. Meus irmãos não se interessavam muito por seguir estudando, talvez em função dos poucos recursos que tínhamos. Saí de São Pedro da Serra, no início de 1979 e vim para São Leopoldo, com o objetivo de estudar Direito na Unisinos, curso que concluí em 1988. Minha escolha pelo Direito surgiu quando freqüentei o 2º Grau, na Escola Estadual de 2º Grau de Salvador do Sul, que tinha suas atividades no prédio do Colégio Santo Inácio, em Salvador do Sul, onde estudei por oito anos. Lá, tive a oportunidade de conhecer os jesuítas e de experimentar exemplos muito bons. Sempre gostei da prática da Justiça, e, por ser de família humilde e conviver com algumas injustiças, entendi que poderia contribuir com as pessoas e a sociedade, aprendendo e me formando na área do Direito.

Profissão e relação com os colegas de trabalho - Nunca atuei como advogado. Quando me formei, já estava trabalhando na Unisinos, na função de auxiliar administrativo, e  em 1992 assumi uma nova função, como supervisor da  Gráfica Unisinos. Entrei como funcionário, através de entrevista feita pelo padre Egydio Schneider, então vice-reitor, com quem tive bastante convivência. Ele, por sinal, foi um condutor exemplar nas questões administrativas da Instituição. Sempre gostei e ainda gosto, do modo de atuar da Unisinos, e, por isso, nunca me afastei dos seus princípios.
Sobre a minha área de formação, Direito, não me afastei totalmente de vários de meus colegas. Durante este período, construímos algumas coisas juntos, como redação de contratos e encaminhamento de processos. Na verdade, eu nunca atuei diretamente, mas sempre como colaborador. No momento, encaminhei meu processo de inscrição na OAB e penso, aos poucos, em iniciar atividades nesta área. Antes de começar a trabalhar na Unisinos, não tinha emprego fixo, trabalhava em casa e atuava com voluntário, nos censos do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Salvador do Sul.

Pais - Meus pais moravam no interior do município de São Pedro da Serra, e, com a idade se aproximando dos 60 anos e as coisas da roça começando a se tornar difíceis e pesadas, resolvi comprar um terreno para construir uma casa para eles mais perto do centro. Com isto, também assumi a responsabilidade de cuidar deles enquanto vivessem. Neste período, meu pai veio a falecer em 1998. Fiquei, então, com o compromisso de cuidar da minha mãe. Tive e tenho grande estima pelos meus familiares, além da convicção de que quem não cuida bem dos seus ascendentes não saberá cuidar das gerações futuras. Entendo que colhemos resultados muitos mais expressivos sendo pró-ativos e solidários do que omissos e costumeiramente críticos. A crítica costumeira, normalmente, é uma conta de subtração em vez de uma adição.

Família - Namorei por oito anos e me casei em outubro de 1988. Conheci minha esposa, a Jussara Beatriz, na Escola Estadual de 2º Grau de Salvador do Sul. Posteriormente, ela veio para São Leopoldo, para a Unisinos, onde começou a trabalhar e também se formou em Matemática. Ela foi e continua sendo uma pessoa especial na minha vida. Do nosso casamento, resultaram dois filhos: Bárbara, de 17 anos, e Eduardo, de 13. A Bárbara foi uma alegria muito grande para nós. Ter o primeiro filho foi um grande aprendizado. Somos bastante unidos e solidários, administramos bem as nossas questões familiares, dando grande importância para o diálogo e a educação. Mas também não esquecemos das finanças, de preferência não dando o passo maior do que as possibilidades permitem.

Presente especial - Meu filho Eduardo. Ele nasceu com Síndrome de Marfan, que causa deficiência visual, cardíaca e locomotora. Depois dos quatro anos de vida, ele começou a apresentar os sinais visíveis da doença. Passamos por vários médicos e achamos, no Instituto de Cardiologia, os médicos que diagnosticaram o problema. Nos vimos então obrigados a fazer uma série de tratamentos que culminaram em várias cirurgias, inclusive a cardíaca. Esta cirurgia é um procedimento de alto risco e custo elevado, e neste momento contamos com o apoio da Coopersinos , que foi preponderante para o encaminhamento e restabelecimento de sua saúde. Atualmente, ele continua apresentando dificuldades de locomoção e coordenação, mas o tratamos como um filho normal. Sabemos que toda a doença traz traumas, mas que esses devem ser superados. Atuar numa missão nobre serve como aprendizado e contribui para uma convivência familiar harmoniosa. Acaba trazendo amadurecimento, para que nos tornemos fortes e solidários na jornada da vida. Também participamos de um time de futebol e de um grupo vocal, formado por colegas da Unisinos e outros amigos. Nos reunimos nas segundas-feiras para cantar e  nas sextas-feiras para jogar. Nestes eventos, sempre que posso levo meu filho. Tanto eu quanto ele recebe apoio e incentivo de todos. Desta forma, em família e entre colegas e amigos, temos todas as condições de construir o dia a dia da melhor forma possível.

Lição de vida - Ser pai de uma criança especial é ser solidário sempre. É aprendizado, é trabalho, é procurar sempre a melhor compreensão das coisas e situações. A natureza é única e sábia, e não somos capazes o suficiente para remar contra o seu curso. Aceitá-la e trabalhar na missão que nos é confiada nos renova diariamente e nos torna capazes de suportar e suplantar os grandes obstáculos que a vida nos apresenta.

Sonhos - Meu sonho é adquirir uma pequena área para criar gado, ter em torno de 40 ou 50 cabeças de gado. Isso não é uma missão fácil de se realizar, mas temos que caminhar e perseguir nossos sonhos, pois vivemos para isto. Ter metas é o melhor método para crescer e buscar aquilo que queremos. Portanto, com o sonho, alimentamos as nossas forças para construir nossa realidade, e, ao concretizá-la, realimentamos novos sonhos. Este é o ciclo da vida.

Livros - Não tenho como hábito costumeiro a leitura, mas um dos livros que li e mais gostei foi O profeta, de Gibran Kahlil Gibran. Li outras obras dele, como Ninfas do vale e Asas partidas. Também li bastante sobre Legislação Trabalhista. Gosto também de livros que tenham como tema a Gestão administrativa, principalmente dos que falam sobre Gestão, planejamento e resultados.

Filmes - Meu filme preferido, e também o da minha família, é Uma linda mulher, ao qual já assisti cinco vezes. Também gostei muito de Dois filhos de Francisco. Assisti a vários filmes de guerra, e outros, como Felipe, o bárbaro, Gregos e troianos e Sansão e Dalila. Hoje, prefiro filmes de bang-Bang e documentários.

Hobby - Sempre gostei de esporte, de viajar para o interior ou para o litoral. Nos momentos de lazer, gosto de passear, ver o campo. Sou um apreciador da natureza, gosto muito de flores, principalmente de orquídeas. Entre duas a três vezes por mês, volto para a minha cidade natal para visitar meus familiares.

Visão da política brasileira - Somos um país à procura de uma identidade política. Não achamos ainda os nossos melhores valores e padrões. Estamos evoluindo numa série de quesitos, mas ainda somos um país de Terceiro Mundo. Temos que aprender bastante e investir continuamente em educação, para que o povo saiba distinguir melhor em qual futuro quer e deve apostar. A atuação dos nossos políticos é o retrato do que somos como povo e nação. Muitos políticos querem normalmente patentear suas idéias, mas estas, muitas vezes, resultam em pouca eficácia e de duvidoso benefício social. Precisamos aprender a escolher melhor os nossos políticos e administradores, bem como munir o povo de instrução e ferramentas, capazes de fazê-lo agir e acreditar que seremos mais competentes se nossas convicções e valores resultarem em ações que beneficiam a grande coletividade e não somente determinados grupos. Nação desenvolvida tem um povo desenvolvido.

Unisinos - Grande parcela do que tenho adquiri através da Unisinos. Aprendi com os jesuítas que o crescimento no caminho para o qual se aposta só se consegue com muita luta e persistência. Escolhi a Unisinos por questão de oportunidade e de identidade. Fiz concurso no Bradesco e passei, mas optei por trabalhar na Unisinos porque ali eu tinha a oportunidade de estudar. Acho a Unisinos um lugar bom de trabalhar. É uma instituição que busca continuamente a sua renovação. Ela mostra um caminho, tem uma direção e não se afastou do contexto de construção contínua da pessoa humana. Este é o valor que me move a continuar trabalhando aqui. Sempre gostei de trabalhar com a filosofia dos jesuítas, e, assim, a considero vencedora.

Instituto Humanitas Unisinos - Não conheço a fundo o IHU, mas, dentro do trabalho que faz, a Revista IHU On-Line é uma das melhores da Unisinos. Os artigos são muito bons, ricos e atualizados. O IHU tem uma grande parcela de contribuição no contexto da formação e da educação na Unisinos. O instituto enriquece a Universidade e faz brotar idéias novas e experiências atuais sobre as ações da sociedade e seus ensinamentos.

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