Edição 230 | 06 Agosto 2007

Pais: meros instrumentos do mercado?

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IHU Online

 “O mundo do trabalho, hoje, não permite relações fortes e estáveis”, afirma a psicóloga Beatriz Gang Mizrahi, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. Para ela, os pais estão expostos a uma sociabilidade frágil, e por isso estão com dificuldades em estabelecer vínculos de confiança com os filhos.

Beatriz ressalta que os pais “têm medo de recusar qualquer demanda de trabalho para se dedicarem aos filhos e, por outro, tem receio de dizer não para as crianças num mundo em que se é solicitado a aceitar toda e qualquer exigência”. E alerta que a sobrecarga de trabalho dos pais faz com que as crianças fiquem expostas a outras referências “extra-familiares”, como os serviços de consumo.

Beatriz Mizrahi é especialista em Saúde Mental Infanto-Juvenil pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), e em Psicologia Médica pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Cursou mestrado em Psicologia Clínica pela PUC-Rio com a dissertação Trabalho e parentalidade: interferências do mundo da produção no ambiente facilitador. É aluna do curso de doutorado em Psicologia Clínica dessa mesma instituição. Confira e entrevista.

IHU On-Line - Quais são os principais impasses que o mundo globalizado traz para a família, em especial para a relação pai e filhos?
Beatriz Gang Mizrahi -
Eu diria que o mundo globalizado tem banalizado o desamparo. Temos assistido hoje ao desmonte generalizado das proteções sociais que davam um lugar relativamente seguro para o indivíduo na coletividade a partir de sua condição de trabalhador: emprego estável, aposentadoria, acesso à saúde e educação públicas, mecanismos de inclusão que hoje estão se desfazendo. Estes mecanismos foram, durante muito tempo, preciosos, pois responderam ao anseio de liberdade do indivíduo surgido na modernidade sem deixar as pessoas inteiramente expostas aos caprichos do mercado, como no início do capitalismo. O ideal de proteção à infância, que emergiu também na modernidade, vem sofrendo abalos, já que os pais, expostos ao desamparo social, não encontram suportes externos para sustentar sua atitude de cuidado com as crianças. Como uma defesa diante dessa situação, a família recorre a vários serviços pedagógicos especializados, com o intuito de aumentar a performance da criança e prepará-la para o mercado de trabalho. Esses serviços, assim como os produtos de consumo, não podem substituir as relações, e acabam trazendo para muitas crianças um sentimento de solidão e desamparo que se estende pela vida afora.

IHU On-Line - Com as mudanças no mundo do trabalho, como a senhora avalia a atuação do pai na construção da família? Ele ainda exerce um papel fundamental?
Beatriz Gang Mizrahi -
O mundo do trabalho se relacionou com a função dos pais de maneira ambígua desde o nascimento da sociedade industrial, e hoje essa ambigüidade chega ao seu ponto máximo. Desde a aurora da modernidade, as pessoas foram convocadas a sustentar a afetividade na esfera privada, com os filhos e os esposos, desde que não tenham grandes esperanças afetivas no espaço público e social. Isso foi, logo de saída, muito complicado: como manter o afeto em casa e, por outro lado, fazer essa casa funcionar segundo as regras impessoais e frias do mundo produtivo. A família deveria educar os filhos para se tornarem trabalhadores eficientes e, ao mesmo tempo, desenvolver uma rica intimidade doméstica. Temos aqui uma importante contradição. No entanto, enquanto a frieza do mundo do trabalho foi parcialmente contrabalançada pelas proteções sociais, esse ideal de afetividade entre pais e filhos encontrava ainda um mínimo respaldo na sociedade, que neutralizava parcialmente essa contradição. Agora, no entanto, os pais estão cada vez mais perdendo sua voz e tornando-se meros instrumentos do mercado. Isso porque a lógica econômica fria invade indiscriminadamente todos os espaços. Quanto mais enfraquecidos estão os pais, pela falta de suportes efetivos, mais eles recorrem aos especialistas em educação. Estes últimos muitas vezes culpam a família, ao invés de enxergar o problema em toda a sua complexidade social. Os pais vão ficando submissos e as crianças acabam, com isso não tendo acesso ao ambiente cuidadoso e firme que precisam.

IHU On-Line - Que conseqüências o atual mundo do trabalho tem causado na relação entre pais e filhos?
Beatriz Gang Mizrahi -
O mundo do trabalho hoje não permite relações fortes e estáveis. Adaptar-se à precariedade, à instabilidade, às relações de curto prazo é um ideal do mundo do trabalho que não acompanha a necessidade de nossos filhos de construírem conosco relações sólidas, onde haja espaço tanto para proximidade como para o conflito sem risco de ruptura. É muito difícil realmente para os pais passarem essa consistência e confiança em seus vínculos com os filhos se estão tão expostos a uma sociabilidade frágil lá fora. Por um lado, eles têm medo de recusar qualquer demanda de trabalho para se dedicarem aos filhos e, por outro, têm receio de dizer não para as crianças num mundo em que se é solicitado a aceitar toda e qualquer exigência. Com isso, a criança tende a ser privada tanto da intimidade com seus pais quanto daquelas “frustrações bem dosadas”, que lhe permitem, em contrapartida, o espaço necessário para viverem a própria autonomia.

IHU On-Line - Como é possível recolocar a parentalidade no diálogo com a esfera pública?
Beatriz Gang Mizrahi -
O diálogo com a esfera pública tem sido muito difícil num contexto em que a iniciativa política é tantas vezes esvaziada e substituída por regras econômicas impessoais. Não podemos levantar a bandeira do resgate da participação política e esperar que nossa realidade mude de um dia para o outro. Contudo, penso que se oferecermos aos pais um espaço de escuta compartilhada de seus problemas, vamos estar oferecendo a eles algo muito precioso. A parentalidade, nesse momento, não é imposta de fora pelos especialistas e pelo mercado, mas torna-se uma experiência criativa construída nas trocas e discussões. No que diz respeito à escuta psicológica, o simples fato de o profissional que ouve os pais legitimar as dificuldades que o trabalho coloca na relação com filhos já faz uma diferença política. Escutados por nós, os pais se tornam mais capazes de reconhecer lá fora os contextos sociais mais amplos que podem levá-los em consideração.

IHU On-Line - Quando a senhora diz que a parentalidade pode ser uma experiência mais ampla, entende-se que atualmente o cuidador não precisa ser necessariamente
pai ou mãe?
Beatriz Gang Mizrahi -
Quando me refiro à parentalidade como experiência mais ampla, estou dizendo que existe uma satisfação pessoal que podemos sentir quando cuidamos de outras pessoas, mesmo que elas não sejam nossos próprio filhos. Quando fazemos isso, recriamos o cuidado que um dia recebemos de nossos pais ou de outras pessoas, dando-lhe um colorido próprio e único. Esse tipo de vivência criativa é importante porque sem ela não conseguimos de fato ser bons pais e mães. Ao mesmo tempo, essa parentalidade criativa só pode se dar se os pais não tiverem que responder passivamente às regras sociais, mas puderem participar ativamente de sua criação.

IHU On-Line - Por que a senhora afirma que apenas um movimento de troca entre a esfera pública e a privada pode permitir que a parentalidade se torne uma experiência rica, e não uma mera imposição na vida de cada um?
Beatriz Gang Mizrahi -
Não podemos atingir plenamente uma afetividade rica na relação com os filhos em espaços sociais ocupados por uma lógica fria de mercado, cega às necessidades afetivas tanto das crianças quanto dos adultos. Se não dialogamos com os espaços públicos, eles se reificam e se impõem a nós como fatos intransponíveis. Nesse sentido, sustentar essa troca entre o público e o privado é buscar caminhos para uma parentalidade que não se submete passivamente às exigências externas, nem tampouco submete seus filhos. Não se trata, é claro, de acusar os pais e cobrar deles que mudem o mundo sozinhos, mas de acenar para a importância desses espaços intermediários onde o público e o privado não estão em posições antagônicas, mas se alimentam reciprocamente.

IHU On-Line - Em que medida a sobrecarga de trabalho tem influenciado na concepção da família como referência principal?
Beatriz Gang Mizrahi -
De fato, a sobrecarga de trabalho dos pais faz com que as crianças fiquem mais expostas a muitas outras referências extra-família: creches, escolas integrais, serviços especializados e de consumo. Contudo, esse fato parece não ter deixado as crianças realmente mais livres e autônomas. Esses substitutos exigem freqüentemente delas que se virem sozinhas permanentemente, lutando, de forma incessante, para a aquisição da performance educativa esperada. Podemos reconhecer nesse problema o paradoxo de que a liberdade do indivíduo, seja ele criança ou adulto, depende fundamentalmente de suportes sociais consistentes, e não de uma disputa solitária e incerta pelo próprio lugar ao sol.

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