Edição 227 | 09 Julho 2007

A vida retratada na arte, o maior legado de Frida

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IHU Online

Na opinião da teóloga mexicana Maria Laura Manrique, o maior legado de Frida Kahlo é a “sua própria vida retratada em suas pinturas”. Além disso, menciona a pesquisadora, Kahlo “não oculta suas dores”, o que também é um grande legado. De uma perspectiva humanista, cabe destacar que sua obra mostra “cara a cara a própria situação, sua dor, sua realidade de mulher geradora de vida, mas impossibilitada para que dê frutos”.

As declarações foram dadas com exclusividade à IHU On-Line em entrevista por e-mail, concedida na última semana. Para criar as questões a seguir, a IHU On-Line teve acesso a um artigo inédito de Manrique, intitulado Cuando el dolor in-digna: genera vida!, escrito para a coletânea sobre Frida Kahlo que está sendo organizada pela Prof.ª Dr.ª Edla Eggert.

IHU On-Line - Qual é o maior legado artístico e humanitário de Frida Kahlo?
Maria Laura Manrique -
Não há dúvidas que seu maior legado é precisamente sua própria vida retratada em suas pinturas. Com isto, quero dizer que, na medida em que Frida Kahlo se reconhece, vai se assumindo não somente como mulher – e eu me atrevo a pensar que ela era uma pessoa em uma busca mais do que feminista –, mas também como uma pessoa com capacidades artísticas e que, no meio em que vivia, também foi brindada com a oportunidade para desenvolver suas capacidades.

Penso que sua obra, em certas ocasiões, tem sido considerada como a de uma pessoa ególatra. Pergunto-me, também, se pensarmos que quando um homem apresenta sua obra ele também não pode ser chamado de ególatra. Enfim, parece-me que parte do legado da obra de Kahlo, desde a perspectiva humanista, é ver cara a cara a própria situação, sua dor, sua realidade de mulher geradora de vida, mas impossibilitada para que dê frutos. Humanamente, quase todas as pessoas passam pela dor, tanto física como moral, mas normalmente a negamos e a mandamos ao fundo do baú, a fim de que não nos “moleste”. Frida Kahlo não oculta suas dores e isto me parece um grande legado, pois escreve em seu diário: “Acreditam que eu era surrealista, mas não acreditam no que era. Nunca pintei meus sonhos. Pintei minha própria realidade”. As dores eram parte de sua realidade, mas quando ela a conhece e a assume, de alguma forma, vive de outra maneira. Quer dizer, quando somos capazes de reconhecer nossa própria dor, temos nossa percepção à flor da pele, a qual também nos permite sentir a dor da outra pessoa e, portanto, olhar a dor das pessoas com compaixão. Neste sentido, me parece importante o legado humanista de Frida Kahlo e que, tomara, possamos lê-lo desta maneira para contribuir e melhorar não somente nossa vida pessoal, mas também das demais pessoas do planeta.

IHU On-Line - Quando foi visitar a Casa Azul e o Museu Dolores Olmedo, que impressões você teve?
Maria Laura Manrique -
Visitar o Museu Dolores Olmedo e a Casa Azul, assim como o Anahuacalí, me fez sentir uma mescla de sensações. Faz alguns anos que eu visitei estes lugares somente por curiosidade e com a intenção de conhecer a obra de Kahlo. Naquela ocasião, sua obra me gerou repulsão e ela me pareceu uma pessoa ególatra e masoquista. Também recordo que me deixou sem palavras suas pinturas e seus abortos, e como os relacionava. Pareceu-me que de toda sua obra emanava dor. No final de janeiro, tinha o projeto de escrever sobre Kahlo, junto com minhas colegas Mari Carmen Servitje  e Áurea Mercado . Recorremos ao Museu Dolores Olmedo e a Casa Azul. Tive a oportunidade de me aproximar de Frida Kahlo por meio de material biográfico. Por isso, agradeço a Mari Carmen o convite, já que quando estive diante de sua obra percebi sua verdadeira dor, mas como uma dor que não dói. O que quero dizer é que já não me senti com repulsão frente a suas pinturas, mas entendi sua dor através delas. Isso me ajudou a compreender que há outras mulheres que vivem essas situações de dor, mas que são capazes de transcendê-la. Quer dizer, assumindo a dor própria, essas mulheres podem provocar um processo de cura em outras pessoas.

A Casa Azul encerra uma certa magia. Recorrer a sua casa era como sentir Frida, cheirá-la, escutá-la e olhá-la... pois quando se tem a oportunidade de ver outras recriações dela (filmes, peças de teatro...) e estar na casa em que ela viveu desde pequena e depois com Diego Rivera, ver sua cama e coisas pessoais, tudo isso revela mais do que qualquer descrição. É tão interessante quanto lembrar também que nessa mesma casa alojou-se Leon Trotsky e sua esposa Natalia Sedova.

Estar em sua casa me resultou em toda uma aventura. Da minha perspectiva teológica, foi difícil acreditar que ela não era crente, pois quando criança Frida teve uma formação religiosa, e seu quadro da coluna rompida faz uma alusão a Jesus quando foi crucificado. Talvez por sua proximidade ao pensamento socialista teve essa atitude crítica à religião.

IHU On-Line - Quais são as principais comemorações que estão realizando no México com o motivo do centenário do nascimento de Frida Kahlo?
Maria Laura Manrique -
Desde o princípio do ano, várias atividades têm sido realizado. Uma delas é a exposição na passagem do Metrô Pino Suárez, no qual se mostra a influência de Frida Kahlo na obra de outras e outros artistas. Há também uma performance chamada Casa quien su-Frida, representado pela atriz Ofélia Medina. Sua representação foi excelente, além da ambientação. Atualmente, acontece no Palácio de Belas Artes uma homenagem Nacional chamada “Frida vive aqui”, que se destaca por ter sido considerada como a mais completa exposição que já foi realizada sobre a pintora, pois ocupa as oito salas do Palácio de Belas Artes e apresenta 354 peças (entre óleos, desenhos, aquarelas, gravações, cartas, fotografias e documentos inéditos), que têm a pretensão de “apresentar uma Frida integral”.

IHU On-Line - Em que aspectos a obra “Unos cuantos piquetitos” pode contribuir na conscientização da humanidade para evitar os feminicídios?
Maria Laura Manrique -
A intenção de Kahlo com esta obra não era exatamente conscientizar. Considero que esta obra permite denunciar a violência que se exerce contra as mulheres. Recordemos que Kahlo toma a notícia dos assassinatos quando o assassino declara ao juiz que “somente havia lhe dado uns quantos golpezinhos”. “Unos cuantos piquetitos” pode contribuir para tomarmos consciência sobre os feminicídios, na medida em que se possa apresentar esta obra como tal, como uma denúncia. Quer dizer que quando se apresenta esta obra, podemos interpretá-la como uma denúncia de “feminicídio”. Esse feminicídio denunciado se define como o assassinato de mulheres por homens com motivos como ódio, ira, prazer, ciúmes etc. Os algozes podem ser homens que estão próximos das mulheres (esposo, amante, noivo, por exemplo). Ainda hoje, vemos muitas mulheres assassinadas por seus esposos, amantes ou noivos, que justificam o ato dizendo “que ela merecia”.

IHU On-Line - O sofrimento de Frida como ser humano e como mulher é universal? Por qual motivo?
Maria Laura Manrique -
Pode-se dizer que o sofrimento de Frida Kahlo é universal no sentido de que não importa o status socioeconômico ou a preparação acadêmica das mulheres que são vítimas da violência. No caso de Frida, há o sofrimento que teve desde pequena: a poliomielite, o acidente de ônibus, as operações na coluna, os abortos e a violência exercida por Diego Rivera. Os abortos que Kahlo sofreu representam, além disso, uma dor que muitas mulheres vivem, pois abortar não pode resultar numa situação de satisfação.

IHU On-Line - Sobre a situação das mulheres, o que mudou no México de hoje com relação ao México em que Frida viveu?
Maria Laura Manrique -
Na época de Frida Kahlo, não existia um Instituto Nacional das Mulheres nem políticas de saúde pública.

IHU On-Line - Como a obra de Frida Kahlo pode ajudar a questionar a sociedade “andropatriarcal-kyriarcal”?
Maria Laura Manrique -
A obra de Kahlo pode ajudar a questionar a sociedade andropatriarcal-kyriarcal, no sentindo de que sua a obra apresenta como as mulheres são capazes de desenvolver suas capacidades. Questiona a esta sociedade, na medida em que expõe as discordâncias que se dão nela e nas contradições em que a humanidade tem evoluído. Isso significa que em algumas de suas obras se traduz uma forte crítica social. Contudo, vale dizer que ainda que ela hasteia a bandeira feminista, além de denunciar o racismo, o classicismo, a injustiça...

IHU On-Line - Considerando a trajetória dessa pintora, quais seriam suas principais contribuições para a Teologia no século XXI?
Maria Laura Manrique -
Talvez seja arriscado dizer que a obra de Kahlo possa fazer uma contribuição à Teologia do século XXI. Mas acho que podemos olhar sua obra desde uma perspectiva libertadora de Jesus Cristo como vítima não magoada, quer dizer, olhar a obra de Kahlo a partir da perspectiva de que Jesus de Nazaré foi uma vítima da dinâmica estrutural andropatriarcal-kyriarcal, a qual decidiu sua morte, cuja dinâmica, no caso de Kahlo, é diferente, assim como o é em relação às mulheres do século XXI.   

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